Provocar espaços | To provoke spaces

Algumas palavras podem causar estragos se não forem pesadas em suas justas medidas e ajustadas a determinados contextos. “Provocador”, lugar que ocupo nas ações da HOBRA e neste texto, certamente é uma delas. Se seu funcionamento se der no senso comum, tal figura pode aparecer como uma presença negativa, cuja função seria apenas desestabilizar depreciativamente situações criativas (provocar como desafio). Mas se esse funcionamento se desdobrar nas definições que encontramos, inclusive, em dicionários, ele se torna produtivo (provocar como in/excitar). Estabelecer provocações em um processo artístico de trocas entre desconhecidos, portanto, é abrir canais e, ao mesmo tempo, detectar fissuras.

Para além das definições semânticas da função, outros desafios fazem parte desse trabalho. O primeiro deles, e que falarei nesse texto, é relacionado à constituição de um espaço. Qual o lugar que o provocador se estabelece? Que território tal trabalho constitui? Se instalar entre artistas? Observar em silêncio? Sugerir situações em uma relação que já está plena de encontros e desencontros? Talvez a saída seja saber o que o provocador não deve fazer. Isto é, saber que seu espaço de ação não pode ser definido a priori. Entender que se trata de interagir com processos abertos, trabalhos em que o dado da duração será definitivo. Nem entre, nem fora, a função de provocar – ideias, situações, desvios, aberturas, buracos – deve se instalar no campo de uma demanda afetiva. Provocar o que pede para ser provocado, ou seja, ativar aquilo que está em impasse ou suspensão. Mesmo que tais situações possam ser produtivas, também podem trazer armadilhas.

Um provocador, mesmo com o peso da expressão – quase pomposa, quase jocosa – deve ser um ativador: de desejos, de gagueiras, de saídas, de conversas. Ao mesmo tempo, deve saber o momento de calar e tornar-se extensão do processo de trabalho dos que formam duplas. Em campos diversos e profícuos – artes visuais, novas mídias, design, música, cinema, teatro, dança, literatura, arquitetura – não existe a possibilidade de um saber absoluto se estabelecer. O que existe, sem dúvida, é a possibilidade de colocar vizinhanças em movimento. Aproximar ideias e ficar atento aos termos, palavras e conceitos que certamente se apresentam na aproximação dessas áreas citadas. Temas como espaço, cidade, suportes, corpo, política, tempo, deslocamento, técnica e muitos outros vão proporcionar canais poderosos de comunicação. Provocar será, portanto, estar atento a essas vizinhanças. Percebê-las e alimentá-las por dentro ou por fora das duplas de artistas.

Dois países com histórias e culturas distantes (Holanda e Brasil), representados por duplas de artistas que não se conheciam previamente: tal situação já se constitui, por si só, uma provocação extrema. No caso dos artistas holandeses, o deslocamento para o Rio de Janeiro e sua realidade complexa e caótica provocam mais uma dobra nesse processo de desconhecimento e reconhecimento. É nesse contexto de desafios e diferenças que atuar como um provocador demanda a justa medida de uma intervenção produtiva. Provocar ideias, na mesma medida que se é provocado por elas.

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Some words can cause damage if not weighed into their fair measures and adjusted to certain contexts. “Provocateur”, my position at HOBRA’s activities and in this text, is one of those words. Such a position can mean a negative role to be played, if we take into account the common understanding of the meaning of the word – a person with the function of destabilizing creative situations, in a depreciative manner (provoking to challenge). But if the way this is done reaches beyond the definitions we may find in the dictionary, it can become something productive (to provoke as a way of in/exciting). So, to establish provocations in an artistic process of exchanges between artists who didn’t know each other before is to open channels and, at the same time, to detect cracks.

Beyond the semantical definitions of my position, other challenges are part of this work. The first of all, which I will deal with in this text, is related to the constitution of a space. What is the space the provocateur establishes for himself? What is the territory such work requires? Is it to install himself “between” the artists? To observe in silence? To suggest situations in a relationship which is already full of comings and goings? Perhaps the exit would be to know what the provocateur should “not” do. That is, to know that his space of action cannot be defined ahead of time. To understand that it will be about interacting with open processes, with works in which the duration period is set and final. Not inside, nor outside, the function of provoking – ideas, situations, detours, openings, holes – must be done through an emotional demand. To provoke that which is asking to be provoked, to activate that which is on hold or in suspension. Even if such situations can be productive, they can also be traps.

A provocateur, even with the weight of this expression – almost pompous, almost poking fun – must be an activator: of desires, of studdering, of exits, of talks. At the same time, the provocateur must know the moment to shut up and become an extension of the working process of those who form the duos. In diverse and fruitful fields – visual arts, new media, design, music, film, theater dance, literature, architecture – there is no possibility of an absolute knowledge establishing itself. What exists, without a doubt, is the possibility of putting on the move that which is connectable. To get ideas closer together and to pay attention to the expressions, words and concepts that certainly show themselves during the approximation of the mentioned fields. Themes such as space, the city, structures, the body, politics, time, dislocation, techniques and many more will allow for powerful communication channels to develop. To provoke will be, therefore, to be attentive to these connections. To perceive them and to feed them from the inside or from outside the artists’ duos.

Two countries with distant history and cultures (Netherlands and Brazil), represented by artist duos who had never met before: such a situation is already in itself an extreme provocation. In the case of the Dutch artists, their dislocation to Rio de Janeiro and its complex and chaotic reality provoke already a dent in this process of lack of knowledge turning into a recognition process. It is in this context of challenges and differences that to act as a provocateur demands weighing well what is a productive intervention. To provoke ideas, in the same amount in which one is provoked by them.


Fred Coelho é o provocador da HOBRA | Fred Coelho is HOBRA’s provocateur

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