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Talvez o principal desafio deste projeto (HOBRA) resida em seu processo criativo: uma dupla de artistas vindos de países, culturas, línguas e formações diferentes, trabalham lado a lado durante vinte dias. Como resultado, o imponderável para ser exibido em diferentes espaços e mídias. Inventar em dupla, isto é, compartilhar processos criativos com alguém que você acaba de conhecer em condições específicas (um projeto com curadorias, não um encontro no fluxo aberto da vida), apresenta situações dinâmicas em que a regra principal é, justamente, não ter regras pré-definidas.

Artistas holandeses e brasileiros distribuídos em diferentes áreas de trabalho estabelecerão formatos únicos de produção. Afinal, o que é criar em dupla se não estabelecer-se na fronteira do outro? Ampliar a escuta, abrir mão do seu hábito, ficar poroso ao inesperado que a leitura alheia pode trazer para suas próprias ideias, aprender novos saberes e novas técnicas, tudo isso entra no jogo. Em cada caso, um método para lidar com as aproximações e os limites de cada lado.

Um dos passos fundamentais em qualquer trabalho coletivo é definir os primeiros passos gerais, aqueles que fundam um espaço de colaboração horizontal. É o momento da troca, momento da dádiva. Dar para receber, estar aberto ao que lhe ofertam e estar pronto para devolver com uma nova oferta. Criar laços em comum para instituir um solo comum. A aproximação que passa pelo nome próprio, pela trajetória, pela fala pessoal a respeito do que se espera para a empreitada em dupla. Como proceder? Como falar uma língua fora da sua língua de origem? Para alguns, falar e escrever serão situações fundamentais em que essa “terceira língua” entre o holandês, o português e o inglês emergirá. Para outros, o corpo, o som ou a imagem serão canais mais poderosos para os sentidos. Tais nuances estabelecem diferentes protocolos de aproximação e definição das ações.

No livro Diálogos (1998), escrito por Gilles Deleuze e Claire Parnet, o filósofo francês comenta sua parceria com o psicanalista Félix Guattari na escrita de seus livros que, para muitos, tornaram-se divisores de água no pensamento contemporâneo – O Anti-Édipo (1972), Kafka, por uma Literatura Menor (1975), Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia (1980) e por fim O que É a Filosofia (1991). Ao se conhecerem em 1968, vinham de mundos – políticos, pessoais, intelectuais – bastante diferentes. O encontro, porém, movimentou em ambos as mesmas inquietações. Acostumados ao trabalho solitário, no caso do filósofo, ou ao trabalho sem método, no caso do psicanalista, eles criaram uma máquina de escrita poderosa em que o caos de um alimentou o cosmos do outro.

Segundo Deleuze, o trabalho em dupla não foi fácil – os dois deram alguns depoimentos sobre isso ao longo do tempo em que escreveram juntos – mas ele sempre destacou a necessidade de se inventar um espaço específico para se moverem com parceria e independência. Fecho este segundo texto com uma citação de Deleuze que, de alguma forma, pode servir de inspiração para os artistas do HOBRA e para as demais parcerias que a vida nos apresenta:

“Éramos apenas dois, mas o que contava para nós era menos trabalhar juntos do que esse fato estranho de trabalhar entre os dois. Deixávamos de ser ‘autor’. E esse entre-os-dois remetia a outras pessoas diferentes tanto de um lado quanto do outro. O deserto crescia, mas povoando-se ainda mais. Não tinha nada a ver com uma escola, com processos de recognição, mas muito a ver com encontros”.

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Perhaps the challenge of this project (HOBRA) is in its creative process: a pair of artists coming from different countries, cultures, languages and backgrounds, working side by side during 20 days. As a result, the imponderable, to be exhibited in different spaces and media. To invent in a duo, that is to share creative processes with someone you have just met, in specific conditions (a project with curatorships, not a meeting through the open flux of life), presenting dynamic situations where the main rule is precisely not to have any pre-defined rules.

Dutch and Brazilian artists, distributed around different fields, will establish unique production formats. After all, what is to create as a duo if not the establishing oneself at the other’s border? To amplify the listening, to give up your habits, to become porous for the unexpected that other people’s reading can bring to your ideas, to learn new pieces of knowledge and new techniques, all of that to enter the game. In each case, a method to deal with the approaches and limits from both sides.

One of the fundamental steps in any collective work is to define the first general tasks, those that inaugurate a space of horizontal collaboration. It is the moment of the exchange, the godsend moment. To give so as to receive, to be open to what is offered you and to be ready to give it back through a new offer. To create common ties to institute a common soil. The approximation that goes through one’s own name, trajectory, through the personal talk about what is expected for the enterprise in a duo. How to proceed? How to talk a language outside the language from where you originated? For some, to talk and write are fundamental situations in which this “fourth language”, between Dutch, Portuguese and English will emerge. To others, the body, the sound or the image will be the most powerful channels for the senses. Such nuances establish different protocols of approximation and definition of the actions.

From the book Diálogos (1998), written by Gilles Deleuze and Claire Parnet, the French philosopher, talks about his partnership with psychoanalyst Félix Guattari in the writing of his books, which, for many, have become turning points in the contemporary thought – O Anti-Édipo (1972), Kafka, por uma Literatura Menor (1975), Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia (1980) and, finally, O que É a Filosofia (1991). When they met, in 1968, they were coming from very different worlds – political, personal, intellectual. Their meeting, however, moved in both the same concerns. Used to solitary work, in the case of the philosopher, or to work without method, in the case of the psychoanalyst, they created a machine of powerful writing in which the chaos from one fed the cosmos of the other.

According to Deleuze, the work in pair was not easy – both talked about it during the time they were working together –, but he has always highlighted the need of inventing a specific space to move in partnership and with independence. I close this second text with a quote from Deleuze that, in some way, can serve as inspiration for HOBRA’s artists and for the other partnerships life presents us with:

“We were only two, but what mattered to us was less to work together than this strange fact of working between the two of us. We stopped being each an ‘author’. And this “between the two of us” sent us into being different people, both from one side as well as from the other. The desert expanded, but getting more populated all the time. It was nothing like a school, with processes of recognition, but it had a lot to do with meetings”.


Fred Coelho é o provocador da HOBRA | Fred Coelho is HOBRA’s provocateur

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