Encontros | Encounters

Por Fernando Belfiore |

Duas citações me atingem ultimamente:

“(…) o encontrar-se está se expandindo, graças aos nossos meios de transporte e comunicação. Por outro lado, como sempre, essa expansão vem a um custo: o da ‘perda de intensidade’. Encontros são tão fáceis e numerosos que a intensidade dos contatos, que poderíamos almejar, como resultado, não é mais a mesma que foi uma vez. Introduzimos uma série de precauções: acabo escolhendo pessoas suficientemente similares a mim, podendo esperar me dar bem com elas, porquanto mantenho-me exatamente o mesmo. Essa é a tendência do mundo contemporâneo, a introdução de uma falsa variedade dentro de uma imensidão de mesmice. A improbabilidade se distingue de uma experiência mundana. Quando um encontro se dá com você, quando você sente a sensação muito forte de que está acontecendo com você, acontece um fenômeno de atração ou repulsão – às vezes os dois misturados – em relação àquilo que perturbou o ritmo de sua existência. Essa experiência, por sua parte, pode perfeitamente bem caber dentro de suas atividades de trabalho ou familiares, enquanto um encontro está começando. Mas começando o que? É o ponto de aceitação: aceitar ou recusar o que está acontecendo com você.  Tomando o exemplo de encontros amorosos, o problema todo está em saber se declarar-se ou não. As pessoas falam em declação de amor. O encontro tem que ser declarado, ou seja, aceito.” (Alain Badiou)

“Os homens se enganam quando se acreditam livres, essa opinião se baseia em eles estarem conscientes de suas ações e ignorantes das causas pelas quais elas são determinadas. Sua ideia de liberdade, portanto, é simplesmente sua ignorância de qualquer causa para suas ações. Quando dizem que as ações humanas dependem da vontade, isso não passa de uma mera frase sem qualquer ideia à qual corresponde de fato. O que a vontade é, e como ela movimenta o corpo, nenhum deles sabe.” (Baruch Espinoza)

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Texto que escrevi para o edital deste projeto:

Em meu trabalho, apresento a coreografia como um potencial para a transformação social através do foco na performatividade e práticas baseadas na partitura. Eu achei que seria intrigante de minha parte trazer as fontes holandesas tão inspiradoras que me tocaram quando me mudei para os Países Baixos. Elas são as obras coreo-políticas do artista visual Arnout Mik, a história de Mata Hari, os encantadores conceitos filosóficos de Espoinoza, que rejeita a separação entre corpo e mente, e o trabalho afetivo e plural de Bosch. Como pode esse encontro criar um coreo-evento, potencialmente para repensar perspectivas e trocas como uma agência emergente? Estou buscando por uma generosidade do material em relação à audiência, mas com a intensificação da presença do performer sempre na jornada. Eu busco quebrar os sistemas binários e trazer a fantasia como possibilidade, realidades produzindo novos imaginários sociais. Para fazer arte não apenas para provocar, mas para evocar, libertar e afetar como uma experiência perceptiva em vez de simplesmente uma forma conceitual a ser analisada. Eu gostaria de propor que essa colaboração seja vista como uma intervenção que afeta e marca, talvez em um espaço público ou dentro de um formato de “mass-flash-mob” (invasão e apresentação em meio a multidão). No contexto fechado dos Jogos Olímpicos, onde os limites dos corpos são levados ao extremo, eu gostaria de trazer essa ideia de limites e de atravessar fronteiras para dentro da dança como um ponto de partida e conectar com ideias no contexto político brasileiro atual, através do questionamento da polaridade dos pensamentos. Como as artes, hoje em dia, podem ter seu potencial de afetar a percepção da vida dentro dos seus espectros possíveis de local-pessoal-individual e global-impessoal-comunitário?

. . .

By Fernando Belfiore |

Two quotes that hit me lately:

“(…) the encounter is widening, because of our means of transport and communication. On the other hand, as always, this enlargement comes at the cost of a ‘loss of intensity’. Encounters are so easy and numerous that the intensity of the change that we could accept as a result is no longer the same as it once was. We introduce a set of precautions: I will take someone sufficiently similar to me that I can hope to go along with this person while myself remaining exactly the same. This is a tendency of the contemporary world, to introduce a false variety within a vast sameness. Improbability distinguishes it from an ordinary experience. When the encounter happens to you, when you have the very strong feeling that it is happening to you, there is a phenomenon of attraction or repulsion – sometimes the two are mixed – toward what has disturbed the rhythm of your existence. Experience, for its part, can perfectly well fit within your work or family activities, whereas the encounter is a beginning. But the beginning of what? It is at the point of acceptance: accepting or refusing what is happening to you. To take the example of an amorous encounter, the whole problem lies in knowing whether to declare it or not. People speak of a declaration of love. The encounter has to be declared, that is, accepted.” (Alain Badiou)

“Men are mistaken in thinking themselves free; their opinion is made up of consciousness of their own actions, and ignorance of the causes by which they are conditioned. Their idea of freedom, therefore, is simply their ignorance of any cause for their actions. As for their saying that human actions depend on the will, this is a mere phrase without any idea to correspond thereto. What the will is, and how it moves the body, they none of them know.” (Baruch Spinoza)

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Text I wrote for the call of this project:

In my work, I present choreography as a potential for social transformation through a focus on performativity and score based practices. I thought it would be intriguing from my side to bring as inspirational sources Dutch references that I encountered when moved to the Netherlands that “touched me”. Those are the choreo-political works of the visual artist Arnout Mik, the history of Mata Hari, the enchanting philosophical concepts of Spinoza that refuse the separation of mind and body and the affective and plural work of Bosch. How can this encounter create a choreo-event potentially to re-think perspectives and exchange as an emergent agency? I am looking for generosity with the material towards the audience but with the intensification of the presence of the performer always in the journey. I seek to break binaries systems and to bring fantasy as possible realities production towards new social imaginaries. To make art to not only provoke but to evoke, liberate and affect as a perceptual experience rather than simply a conceptual form to be analysed. I would like to propose in this collaboration to see it is an intervention of affects and scores, perhaps in public space or within a mass-flash-mob-format. In a close context of the Olympic Games, where the limits of the bodies are taken to extremes, I would like to bring this idea of limits and crossing borders into dance as a point of departure and connect with ideas within the political context of the Brazilian current situation through questioning the polarity way of thinking. How the arts today can have the potential to affect perception onto life within the possible in-betweens spectrum of local-personal-individual and global-impersonal-communal?


Fernando Belfiore é representante da Holanda na área de dança da HOBRA | Fernando Belfiore is the Dutch delegate in the area of dance for HOBRA

 

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