Um encontro no Rio | A Rio encounter

Por Daan Gielis |

EXTERNA – RUA DO RIO DE JANEIRO – À TARDE

Tênis sujos, usados, seguindo pelo pavimento. JULIA (32) respira pesadamente, abre o zíper de sua jaqueta. Calor.

Ela para e se vira. Um mar de verde e amarelo se movimenta pela rua principal; centenas de pessoas gritando passionalmente, com as mãos levantadas. Julia se sente perdida; ela quer fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Sem muita convicção, ela levanta suas mãos, no que as vozes ficam mais altas, mas dá pra ver, pela maneira como ela faz isso, que nunca tinha feito isso antes.

Um tiro… mais um. A polícia interferindo. Julia congela. As pessoas começam a gritar, estão correndo em sua direção. Um jovem – FÁBIO (21) – passa, dá uma olhada nela, preocupado, com um olhar vacilante.

FÁBIO

(em português)

O que você está fazendo aqui?

Julia não tem ideia do que ele está dizendo. Ele gira ela e dá um pequeno empurrão para além da multidão.

FÁBIO

(em português)

Venha! Se mexe!!

Fábio está caminhando na frente dela – agilmente – muito mais rápido que ela, que mal consegue manter o passo com ele. Mais uma explosão. Pessoas passando correndo pelo seu lado, gritando, procurando abrigo. Fumaça por todos os cantos, e ela não consegue ver mais o Fábio.

Uma forma estranha de coragem começa a possuir Julia. Ela para e se vira novamente. Alguém tropeçou nela. Uma pedra quase lhe atinge a cabeça.

No meio do caos ela vê os rostos assombrados de pessoas como ela, jovens, idosos, crianças. Com medo, mas determinados. Lutando passionalmente por seus direitos. Ela deseja poder fazer algo, calmamente começa a caminhar de volta à multidão.

Repentinamente, ela estagna. Na sua frente – uns dois metros de distância – aparece um MENINO (8). Ele está olhando pra ela com olhos inteligentes. Julia, empedrada, fica olhando a face do menino, com a bandeira brasileira pintada em sua pele. Ele olha pra ela como se pudesse olhar diretamente dentro dela. Julia se sente frágil e forte ao mesmo tempo. Ele se olham fixamente, nem um nem outro querendo escapar o olhar primeiro.

Outra explosão, mais pedras. Por reflexo, Julia começa a correr de novo. Ela pisa no asfalto como se sua vida estivesse em jogo. Suor escorre pela sua testa até seu pescoço. Ela respira pesadamente, quase sem ar.

Distante da fumaça, Julia se curva aos joelhos para buscar ar. Se recupera e se acalma um pouco.

Raios vermelhos de sol repentinamente pegam sua face. Ela fica maravilhada com a beleza disso. Respira fundo, fecha os olhos por um segundo, deixando o sol lhe acalmar.

Aí ela segue caminhando e vira a esquina.

. . .

By Daan Gielis |

EXT. STREET RIO DE JANEIRO – AFTERNOON

Dirty, worn out sneakers making their way on the pavement. JULIA (32) is breathing heavily, unzips her jacket. Hot.

She stops and turns around. A sea of yellow and green moves through the main street; hundreds of people passionately shouting, raising their hands. Julia feels lost; she wants to do something. Anything. She half-heartedly raises her hands as the voices get louder, but from the way she does it, you can see she’s never done this before.

A gunshot, and another. Police is interfering. Julia freezes. People start screaming, are running towards her. A young man – FABIO (21) – passes, glances at her, worried, a flicker in his eyes.

FABIO

(in Portuguese)

What are you doing here?

Julia has no clue what he’s saying.  He turns her around and gives her a gentle push, away from the crowd.

FABIO

(in Portuguese)

Come on! Move!!

Fabio is walking in front of her – agile – way faster than she is, she can hardly keep up with him.  Again an explosion. People are running next to her, screaming, looking for shelter. Smoke everywhere, she doesn’t see Fabio anymore.

A strange kind of courage is taking possession of Julia. She stops and turns around again. Somebody is bumping into her. A stone nearly touches her head.

In all the chaos she sees the haunted faces of people like herself, young, old, children. Scared but determined. Passionately fighting for their rights. She wishes she could do something, slowly starts walking back to the mass.

Suddenly she holds still. In front of her – about two meters away from her – is a little BOY (8). He’s looking at her with intelligent eyes. Julia, turned to stone, is watching his face, the Brazilian flag painted on his skin. He is looking at her as if he can see right through her, Julia feels fragile and strong at the same time. They stare at each other, as if neither of them wants to give up first.

Another explosion, more stones. In a reflection Julia starts running again. She is pounding the asphalt as if her life’s on the line. Sweat runs from her forehead to her neck. She’s breathing heavily, almost out of air.

Away from the smoke, Julia bents down grasping for breathe. She raises, calms down a bit.

Red rays of sunlight suddenly catch her face. She’s overwhelmed by its beauty. She takes a deep breath, closes her eyes for a second, let the sun calm her.

Then she walks on, turns a corner.


Daan Gielis é a representante da Holanda na área de cinema da HOBRA | Daan Gielis is the Dutch delegate in the area of film for HOBRA

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