Construindo | Building

Por Sjoerd ter Borg |

“Então você vai criar um prédio em três semanas?” Essa é a pergunta que eu ouço constantemente sobre minha participação na HOBRA, na área de arquitetura, em julho, no Rio de Janeiro. “Claro”, eu respondo, com um sorriso; mas por trás dessa pergunta existe, na verdade, uma grande suposição ligada ao campo da arquitetura. Ao sempre circular por aí com maquetes de edifícios extravagantes, esquecemos que a arquitetura deveria ser um meio de fornecer condições para as pessoas viverem e não algo com um fim em si mesmo.

Como um dos meus blogs favoritos de arquitetura, Failed Architecture, escreve: “O visual do prédio é um sintoma. Ele reflete como a mídia representa os edifícios, com visuais não realísticos e escrita irrelevante. A imprensa não faz mais do que espalhar os belos visuais produzidos pela arquitetura e pelos medalhões do planejamento urbano. Olham pra novidade pristina da arquitetura exclusiva. Para não distorcer essa fantasia, suas implicações sociais, dinâmica política, problemas internos e o uso de espaço são convenientemente deixados de fora do quadro.”

Exatamente esses aspectos são os que eu quero explorar durante minha residência artística no Rio de Janeiro. Falando com o brasileiro da nossa dupla, Pedro Varella, concordamos que, para nós, a arquitetura não é uma foto instantânea de seu tempo. Ela está enraizada na história, mudando ao longo dos anos, constantemente (re)definindo espaços. Uma das áreas de interesse que compartilhamos é o Porto do Rio, um dos portos mais movimentados do Brasil, que é lar de uma forte comunidade afrobrasileira, passando por grandes mudanças no momento. Apesar de sua riquíssima história, a herança africana e a longa época de escravidão são mais do que negligenciadas no Brasil (algo que o país tem em comum com a nação holandesa). A história dos diferentes lugares no Porto do Rio se mantém bastante desconhecida. Ao mesmo tempo, o porto está passando por uma transformação em grande escala. Algumas dessas mudanças vão melhorar a área positivamente, mas também têm recebido críticas pela baixa qualidade de construção, desconsiderando o contexto histórico e criando condições que reproduzem injustiça social. Então, como nós enquanto arquitetos nos relacionamos com esse tipo de redesenvolvimento?

Um de meus projetos passados tem algumas semelhanças com essa transformação: pesquisei uma marina no centro de Amsterdã que, depois de 360 anos fechada para acesso civil, agora será parte da cidade e terá acesso do público. Pedi para que alguns escritores trabalhassem na marina e criassem mapas baseados em suas histórias. Eu uso esse método para criar uma forma poética, mas funcional de pensar sobre o desenvolvimento da cidade, onde a ficção transforma como você enxerga a cidade. Se os autores documentam a história, fazem dela um estágio de uma história ou descrevem a realidade, características escondidas revelam aspectos completamente únicos. Dessa maneira, o mundo fictício nos força a entender o mundo real de modo diferente e influencia o redesenvolvimento para que foque em aspectos menos aparentes.

Então, respondendo a pergunta com que iniciei esse blog: não, provavelmente não vamos criar um prédio típico ou alguma maquete cuidadosamente feita de um edifício. Mas, ao explorar artisticamente um tópico arquitetônico como o desenvolvimento do Porto do Rio, espero influenciar a maneira que pensamos sobre o futuro das cidades.

[imagem: área da marina em Amsterdã: poucos anos atrás, esse local era inacessível e turvo no Google Mapas. Nos próximos anos, deve ser transformado em uma parte pública da cidade]

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By Sjoerd ter Borg |

“So are you going to design a building in three weeks?” This is the question I regularly get when people hear about me participating as part of the HOBRA-residency within the architecture discipline this July in Rio de Janeiro. “Of course”, I reply with a smile, but underneath this question actually lies a greater assumption within the architectural field. By constantly circulating fancy renderings of buildings, we forget that architecture should always be a mean towards providing conditions for people, not an end in itself.

As one of my favourite architecture blogs Failed Architecture writes: “The visualised building is a symptom. It illustrates how the media represent buildings, with unrealistic visuals and irrelevant writing. The press do little more than spread the visual candy produced by architecture and city planning’s slickest players. Gaze on the pristine newness of exclusive architecture. In order not to distort this fantasy, the social implications, political dynamics and internal problems of architecture and spatial production are conveniently left out of the picture.”

Exactly these aspects are the ones that I want to explore during my residency in Rio de Janeiro. When I was talking to my Brazilian counterpart, Pedro Varella, we agreed that, for us, architecture is not a snapshot in time. It is rooted in history, changing over the course of the years, constantly (re)defining space.  One of our shared areas of interest is the Port of Rio, one of the busiest ports in Brazil, home to a strong Afro-Brazilian community and undergoing major changes at the moment. Despite this rich history, Rio’s African heritage and long history of slavery is all too often overlooked in Brazil (something the Dutch nation has in common). The history of the different sites in the Port of Rio remains largely unknown. At the same time the port is undergoing a large-scale transformation. Some changes will improve the area positively, but it also has received criticism for poor quality construction, disregarding the historical context and creating conditions that reproduce social injustice. So, how can we as architects relate to this kind of redevelopment?

One of my former projects had some similarities with this transformation: I researched a marine base in the city centre of Amsterdam that after 360 years of being closed off for civilians will be made a public part of the city. I asked writers to work on the marine base, and designed maps on the basis of their stories. I use this method to create a poetic yet functional way of thinking about city development, in which fiction is transforming how we see and the city. Whether the authors document the history, make it a stage of a story or describe a place by the smell and the sound of the feeling: by switching between fiction and reality, hidden features will unveil totally unique aspects. In this way, the fictional world forces us to understand the real world in a different way and influences the redevelopment to focus on less apparent aspects.

So to answer the question I started this blog with: no, we probably won’t design a typical building, or make a carefully rendered image of a building. But by artistically exploring an architectural topic like the development of the Port of Rio I hope to influence the way we think about the future of cities.

[image: the marine area in Amsterdam: a few years go this area was inaccessible and blurred on Google Maps. In next coming years it will be redeveloped into a public part of the city]


Sjoerd Ter Borg é o representante da Holanda na área de arquitetura da HOBRA | Sjoerd Ter Borg is the Dutch delegate in the area of architecture for HOBRA

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