Políticas | Politics

Abro um pequeno livro recém-comprado. O autor da conferência que dá origem ao texto é o filósofo e historiador da arte Georges Didi-Huberman. Em um trecho quase final, a leitura retém o parágrafo a seguir:

“O que quero sugerir – talvez rápido demais – é que, se não podemos fazer boa política efetiva apenas com sentimentos, tampouco podemos fazer boa política desqualificando nossas emoções, isto é, as emoções de toda e qualquer pessoa, as emoções de todos em qualquer um.”

Em um mundo que passa por convulsões políticas em muitas frentes, será inevitável que a tensão e o desgaste que a população brasileira vive há alguns meses se infiltre nas conversas e, certamente, em alguns trabalhos que surgirão nos encontros da HOBRA. Como explicar a quem não vive aqui o que se passa se nem nós mesmos sabemos ao certo? Ou recorremos a passados escravocratas, coloniais e latifundiários para justificar uma elite política predadora, ou mergulhamos nos fatos desse presente caótico para extrair perplexidades e indignação. Talvez o choque entre artistas que desconhecem a dinâmica histórica do país e artistas que vivem na sua própria produção os impasses dessa situação gere trabalhos e experiências únicas.

Vale não perdermos de vista a frase de Didi-Huberman. Emoções que nos movem também são aspectos importantes – e universais – da política. O ódio fascista, o medo da violência, a resiliência do imigrante, o campo minado da diferença, a luta pelo direito de ser um criador livre, a complexa vivência nas cidades, o aspecto transformador da arte, tudo isso são vetores para conexões que, ainda reverberando força política, transcendam minúcias factuais e locais. O Brasil, como o mundo, vive tempos de intolerância afirmativa. Às perenes e profundas divisões sociais, soma-se agora a divisão política.

Talvez o encontro das distâncias entre Brasil e Holanda, entre diferentes modos de fazer e entre muitas frentes criativas, será uma possibilidade poderosa para repensarmos nossas ideias e, por que não, fundarmos novas políticas com as emoções de todos em qualquer um.

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I open a recently bought small book. The author of the lecture that gives origin to the text is the philosopher and art historian Georges Didi­Huberman. In an almost final portion, the reading brings the following paragraph:

“What I want to suggest – perhaps too fast – is that, if we cannot make good politics effective only with feelings, much less we can make good politics disqualifying our emotions, that is, the emotions of every and each person, the emotions from everyone in anyone.”

In a world that is going through political convulsions on many fronts, it will be inevitable that the tension and the abrasion that the Brazilian population lives under, for some months already, gets infiltrated into the talks and, certainly, into some works that will arise from HOBRA’s meetings. How to explain to someone who doesn’t live here what is going on if not even we ourselves know for sure? Either we resort to our slaveholding, colonial and large landowner’s past to justify a predatorial political elite, or we dive into the facts of this chaotic present to extract perplexities and indignation. Perhaps the shock between artists who do not know the historical dynamics of our country and the artists who live through their own production the deadlocks from this situation generate unique works and experiences.

It is worthy to not loose from sight Didi­ Bunerman’s quote. Emotions that move us are also important – and universal – aspects of politics. The fascist hate, the fear from violence, the immigrant’s resilience, the minefield of the difference, the fight for the right of being a free creator, the complex life of the cities, the transforming aspect of art, all of that are vectors for connections that, still reverberating political strength, transcend factual and local minutiae. Brazil, as the rest of the world, is living times of affirmative intolerance. To the perennial and profound social divisions, now is added the political division.

Maybe the meeting of the distances between Brazil and the Netherlands, between the different ways of doing things and from various creative fronts, it will be a powerful possibility to re­think our ideas and, why not, found new political ways with the emotions from everyone in anyone.


Fred Coelho é o provocador da HOBRA | Fred Coelho is HOBRA’s provocateur

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