Exercitando sentidos | Exercising senses

Por Pedro Kosovski |

Essa imagem é conhecida por vocês da peça Not I, de Beckett. Mas o que vou falar aqui nada tem a ver com essa obra. De ínicio, o que posso falar é que esta imagem está aí para tornar esse texto mais interessante.

O que faremos na HOBRA segue a “lógica” dos estados de encontro. Nada de processos, nada de relacionamentos, nada de continuidades. A criação no jogo dos “duos” é casual, efêmera e descontínua. Conheço nada do meu parceiro holandês, assim como ele de mim. Não há nenhum antes e até o momento não projetamos nenhum depois. Por obra do acaso, eu e Sjaron acabamos nos cruzando e tudo o que dispomos é de uma série determinada de encontros únicos. E só. Nem mais. Nem menos. Gosto dessa precisão. Não deixo de pensar nisso como uma provocação. E aqui, a questão passa a ser para mim parecida com aquelas ideias do filósofo holandês, judeu excomungado, de familia portuguesa, Baruch Spinoza: como criar um bom encontro? Como fazer com que os efeitos de uma associação somem, no lugar de subtraírem? E talvez, ainda de quebra, tanger aquela misteriosa sensação de alegria.

Voltando a imagem de Not I. Por acaso, ela cruzou comigo. E achei que isso representaria esses tais estados de encontro da arte. A boca parece o buraco negro em que nada escapa: nem tempo e nem espaço podem resistir a sua vocação devoradora. E no coração da boca, a língua não é mais que um pedaço de carne. Talvez, musculatura. Exercitando sentidos.

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By Pedro Kosovski |

This image is known to you from the play Not I, by Beckett. But what I will say here has nothing to do with this work. From the start, what I can say is that this image is there to make this text more interesting.

What we will do in HOBRA follows the “logic” of meetings. No processes, no relationships, no continuity. The creation in the game of duos is casual, ephemeral and discontinuous. I know nothing about my Dutch partner, as well as he knows nothing about me. There is no before and, só far, we have not projected any after. By chance, I and Sjaron ended up crossing each other and everything we have is a pre­determined series of unique meetings. And that’s all. Nothing more, nothing less. I like this precision. I can’t think about it as other than a provocation. And here, the issue becomes, for me, similar to those ideas from the Dutch philosopher, excommunicated Jew from a Portuguese family, Baruch Spinoza: how to create a good meeting? How to make the effects of an association add up instead of subtracting? And perhaps, to topple it, plucks up from us that mysterious feeling of happiness.

Getting back to the image from Not I. By accident, it crossed me. I thought that it would represent such states of meeting of the art. That mouth looks like the dark hole from which nothing escapes: neither the time nor space can resist its devouring vocation. And in the heart of the mouth, the tongue is no longer a piece of flesh. Maybe it is a muscle part. Exercising the senses.


Pedro Kosovski é o representante do Brasil na área de teatro da HOBRA | Pedro Kosovski is the Brazilian delegate in the area of theatre for HOBRA

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