Sócrates x Hamlet | Socrates x Hamlet

Por Patrick Pessoa |

Em 1934, exilado em Paris por causa de um presidente cujo sobrenome terminava em ER, Walter Benjamin dá uma conferência no Instituto para o Estudo do Fascismo intitulada O Autor como Produtor. Nessa conferência, em que reflete sobre o vínculo entre a tendência política e o valor estético de uma obra de arte, Benjamin apresenta uma tese fundamental para se pensar a relação entre arte e política: se mesmo a obra de arte mais revolucionária pode ser apropriada, assimilada e domesticada pelo capital, ele diz, a tarefa dos artistas que combatem o fascismo não seria tanto a de criar obras de vanguarda (seja no sentido da invenção formal, seja no sentido ideológico do termo), mas sim a de criar estratégias que permitissem a “refuncionalização” dos meios artísticos de produção. O conceito de “refuncionalização”, que Benjamin aprendeu com seu amigo Brecht, cuja residência na Dinamarca ele costumava frequentar nos anos de exílio de ambos, diz respeito à necessidade de os artistas trabalharem no sentido de redesenhar o próprio aparelho de produção artística, as próprias instituições, diminuindo a distância tradicional entre “criador” e “público”. Benjamin escreve: “Um artista que não ensina outros artistas não ensina ninguém. O caráter modelar da produção é, portanto, decisivo: em primeiro lugar, ela deve orientar outros produtores em sua produção e, em segundo lugar, precisa colocar à disposição deles um aparelho mais perfeito. Esse aparelho é tanto melhor quanto mais conduz consumidores à esfera da produção, ou seja, quanto maior for sua capacidade de transformar em colaboradores os leitores ou espectadores.”

Corta.

Em 1964, Arthur Danto publica um texto intitulado O Mundo da Arte, que começa afirmando que uma das mais antigas compreensões da natureza da arte é aquela que vê a arte como um espelho da realidade. Danto opõe então dois pensadores que teriam abraçado essa visão da arte como um espelho: Sócrates e Hamlet. Se, para Sócrates, a arte seria um reflexo deformado da realidade, que estorvaria tanto a possibilidade de um conhecimento verdadeiro quanto a de um comportamento eticamente justo – essas duas razões levaram-no a propor a célebre expulsão dos poetas da cidade ideal! –, para Hamlet, muito pelo contrário, a arte tornaria visíveis verdades que normalmente permanecem encobertas (a peça concebida por Hamlet dentro da peça Hamlet, de Shakespeare, revela que Claudius teria sido o assassino do velho Hamlet…). Ainda que não deixe isso claro, em seu texto Danto toma claramente o partido de Hamlet, afirmando o potencial cognitivo da arte. Se se tratasse de um jogo de futebol, Sócrates perderia de goleada.

Corta.

Em 1982, alguns jogadores do Corinthians, liderados por Sócrates, um ícone do futebol-arte, um dos principais nomes do Brasil na trágica derrota diante da seleção italiana na Copa do Mundo realizada naquele mesmo ano, criam um movimento que mais tarde veio a ser conhecido como a “democracia corinthiana”. Durante dois anos, a política interna do Corinthians não foi decidida por um cartola dotado de poderes absolutos, mas sim através do voto, por todos os funcionários do clube, aí naturalmente incluídos os jogadores de futebol. As novas contratações, as regras para a concentração, para a aplicação da renda dos estádios, para a divisão dos “bichos” pelas vitórias, tudo era decidido pelo voto direto, mesmo numa época em que o Brasil vivia sob uma assumida ditadura civil-militar. Com a criação do clube dos 13 e a ida de Sócrates para a Itália – é inesquecível a imagem do jogador, num gigantesco comício pelas Diretas Já! em 1984, dizendo a uma multidão que, se a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada no Congresso, ele não deixaria o Brasil… –, essa tentativa de refuncionalização do aparelho futebolístico chegou ao fim. Mas, num jogo de futebol entre Sócrates e Hamlet, agora o placar já ficaria bem mais apertado.

Corta.

Em 2016, vivemos sob o governo ilegítimo de um presidente interino cujo sobrenome também termina em ER. Sócrates e Hamlet continuam entre nós, assim como Benjamin e Brecht, sem esquecer de Arthur Danto. Imagino uma (h)obra em que todos conversassem, como se estivessem juntos na residência do Brecht na Dinamarca ou, quem sabe, na casa do Benjamin, no Rio de Janeiro. No caso, na casa do Benjamin Constant. O jogo ainda não terminou. Ainda dá para virar. Fora Temer.

Corta.

Embaralha.

. . .

By Patrick Pessoa |

In 1934, exiled in Paris because of a president whose last name ended in ER, Walter Benjamin gives a lecture in the Institute for the Study of Fascism, entitled O Autor como Produtor (The Author as a Producer). In this conference, in which he reflects about the link between the political trend and the aesthetic value of a work of art, Benjamin presents a fundamental thesis to think about the relationship between art and politics: if even the most revolutionary work of art can be appropriate, assimilated and domesticated by capital, he says, the task of the artists that combat fascism would not be that much of creating avant-garde works (be it in the sense of the formal invention, be it in the ideological sense of the term), but actually that of creating strategies that would allow a “refunctionalization” of the artistic ways of production. The concept of “refunctionalization”, which Benjamin learned with his friend Brecht, whose residence in Denmark he used to frequent during the years of exile of both, relates to the need of artists to work towards the redesigning of the artistic production apparatus itself, its own institutions, shortening the traditional distance between “creator” and “public’. Benjamin writes: “An artist who does not teach others, does not teach anybody. The modelling character of production is, therefore, decisive: firstly, it must orient other producers in their productions and, secondly, it needs to make it available for them a more perfect apparatus. This apparatus is better based on the measure of how much it leads more customers to the sphere of the production, that is, the larger is its ability to transform in collaborators the readers or the spectators”.

Cut.

In 1964, Arthur Danto publishes a text entitled O Mundo da Arte (The World of the Arts), which starts stating that one of the oldest comprehensions about the nature of the art is that which sees art as a mirror of reality. Danto then opposed two thinkers who would have embraced this vision of art as a mirror: Socrates and Hamlet. If, for Socrates, art would be a deformed reflex of reality, that would obstruct as much the possibility of a true knowledge as well as of an ethically fair behaviour – these two reasons led him to propose the famous expulsion of the poets from the ideal city! –, for Hamlet, rather the opposite, art would make visible truths that normally stay covered (the play conceived by Hamlet inside Shakespeare’s play Hamlet reveals that Claudius would have been the murderer of the old Hamlet…) Even if he doesn’t leave this very clear, in his text Danto clearly takes sides with Hamlet, confirming the cognitive potential of the art. Would it be about a soccer match, Socrates would have lost by a lot.

Cut.

In 1982, some soccer players from Brazilian team Corinthians, led by Socrates, an icon of the so-called art football, one of the main names from Brazil in the tragic loss against the Italian national team in the World Cup from that same year, create a movement that, later became known as “Corinthian democracy”. During two years, the internal politics of Corinthians was not decided by some big boss with absolute powers, but through votes from the club’s workers, then naturally included soccer players. The new hires, the rules for concentration, for the application of resources to the stadium, for the division of illegal bets bonuses for the victories, all of that was decided by direct vote, even at a time when Brazil was under a declared military dictatorship. With the creation of the “clube fos 13” and also Socrates’ move to Italy – it is unforgettable the image of the player in a gigantic public protest for the return of direct vote for president (called Diretas Já), in 1984, telling the crowd that if the law junction proposed by parliamentarian Dante de Oliveira, proposing such direct vote, would be approved in the national Congress, he would not leave Brazil… –, this attempt of “refunctionalization” of the football apparatus came to an end. However, in a soccer match between Socrates and Hamlet, now the score would be much tighter.

Cut.

In 2016, we live under the ilegitimate government of a provisional president whose last name also ends with ER. Socrates and Hamlet are still among us, as well as Benjamin and Brecht, not forgetting Arthur Danto. I imagine a work – (h)obra, in Portuguese – in which everybody would talk as if they were together at Brecht’s home in Denmark or, perhaps, Benjamin’s, in Rio de Janeiro. In this case, Benjamin Constant’s home. The game is not over yet. It can still be turned around. Out with Temer!

Cut.

Shuffle.


Patrick Pessoa é o representante do Brasil na área de teatro doc da HOBRA | Patrick Pessoa is the Brazilian delegate in the area of doc theatre for HOBRA

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