“Vai ser intenso” – uma entrevista com Jorn Konijn sobre a HOBRA | “It will be intense” – an interview with Jorn Konijn about HOBRA

“Às vezes, me sinto caminhando em uma corda bamba.” É assim, de forma bem-humorada, que o holandês Jorn Konijn define a sensação de encarar seu primeiro projeto multidisciplinar, HOBRA – Residência Artística Holanda Brasil, do qual ele é um dos idealizadores. Diretor-fundador da organização cultural This Must Be the Place, Konijn tem uma carreira consolidada como curador de exposições internacionais de arte, design e arquitetura. Nesta entrevista, ele fala sobre a gênese do HOBRA, seus desafios e também sobre sua relação com o Brasil, revelando-se um “ávido colecionador” de discos de vinil de artistas brasileiros dos anos 1960 e 1970.

Quando começou sua relação com o Rio de Janeiro e com o Brasil?

Eu venho trabalhando em projetos culturais entre a Holanda e o Brasil nos últimos dez anos. Inicialmente, sob um ponto de vista governamental e de apoio. Posteriormente, em projetos mais criativos, focando na arquitetura e no design. No começo, a maior parte do meu trabalho era em São Paulo, mas depois de alguns anos, comecei a descobrir a Cidade Maravilhosa.

Como surgiu a ideia da HOBRA?

A ideia veio de diálogos e da parceria com Cesar Augusto, do TEMPO_FESTIVAL. Ele contou a Henriette Post, diretora do Fund for Performing Arts, e a mim mesmo, sobre o projeto Occupation Rio, o qual ele e outros artistas realizaram durante as Olimpíadas de Londres. Henriette e eu realmente adoramos o projeto e começamos a tentar interessar outros fundos culturais holandeses a participar dele. Foi o que fizemos e, com um belo diálogo com Cesar, desenvolvemos o projeto.

E quais foram os desafios para tirar o projeto do papel?

Foi tudo bastante natural, na verdade. O mais importante, para mim, é sempre a ênfase no diálogo e na cooperação de igual para igual. Eu insisto em evitar qualquer tipo de imposição ou um maneira de pensar colonialista. Não somos “nós” fazendo algo para “eles”, mas ambos os lados fazendo juntos. Eu acho que tanto o pessoal do TEMPO quanto os curadores, todos entenderam isso, rapidamente, desde o início. Houve um grande interesse de todos os envolvidos e, dentro do bom espírito do projeto, tudo se desenvolveu agilmente.

No que a sua experiência à frente da HOBRA difere dos seus outros trabalhos como curador?

Esse é o primeiro projeto multidisciplinar com o qual trabalho, pois a maior parte do que faço como curador é no terreno do design, da arquitetura ou exibições de arte. Nunca havia lidado com todas as áreas culturais de uma só vez! E esse é um projeto bastante experimental, no sentido de que não sabemos qual vai ser o resultado final das obras, o que eu acredito ser algo audacioso e interessante. Por fim, eu nunca trabalhei antes em um projeto com tantos investidores, cada um com uma demanda diferente, no melhor dos sentidos! Seis grandes fundos culturais dos Países Baixos e o DutchCulture, juntos com nove entidades culturais do Rio e o TEMPO, como principal programador… e ainda vinte artistas completamente singulares, com suas ideias, vozes e linguagens próprias! Às vezes, me sinto como caminhando em uma corda bamba, sendo que isso não é meu forte! No entanto, essa riqueza enorme e diversidade de vozes e ideias é exatamente o que faz tudo isso tão interessante! Um grande desafio cultural, tanto no nível nacional quanto pessoal.

Como a arte brasileira repercute hoje na Holanda? Que artistas brasileiros são mais conhecidos por lá?

Infelizmente, há muito pouco conhecimento da riqueza cultural brasileira na Holanda. Os grandes nomes, na maioria músicos, tocam em locais maiores, como Caetano e Gil. Mas trabalhos menores, mais experimentais, são difíceis de achar. Isso se dá por motivos práticos – distância, custos -, mas o motivo principal é a falta de conhecimento do público holandês, mesmo, o que é triste. O ambiente cultural holandês ainda é muito voltado ao Ocidente [nota do tradutor: do Norte – Europa e Estados Unidos], seja na área artística for.

E pessoalmente, quais são suas referências artísticas do Brasil?

De alguma maneira, eu sinto que ainda estou descobrindo todas as grandes produções culturais dos anos 60 e 70, que me parecem ser de uma riqueza interminável. Portanto, eu não tenho muita conexão com os trabalhos contemporâneos. Sou um ávido colecionador de discos de vinil brasileiros das décadas que citei e me mantenho maravilhado com a quantidade de obras – fora o quão pouco apreço elas têm no Brasil. Praticamente ninguém conhece as maravilhas de Arthur Verocai ou sabe dizer o nome de uma música de Bebeto. É triste ver como o Brasil trata sua herança musical. É doloroso ver uma Jennifer Lopez ou Pitbul abrindo a Copa do Mundo quando o Brasil tem tantas lendas musicais que poderiam fazer um trabalho muito melhor. Além disso, até hoje ainda existe muita produção cultural no Brasil. Em termos de arquitetura, acho que Nitsche Arquitetos e Rua Arquitetos fazem realmente obras muito interessantes. Em termos de interpretação, vocês podem me acordar a qualquer hora da noite se for para assistir a algum filme com Wagner Moura. E, em termos de música, eu gosto muito de Domenico Lancelotti e Rodrigo Campos. Mas meu álbum favorito do ano passado foi um de rock psicodélico, por um grupo de adolescentes de Goiânia, chamados Boogarins. Não é o tipo de som que eu normalmente ouço, mas esse álbum tem sido tocado repetidamente lá em casa, nesses últimos seis meses. É o Brasil, sempre me maravilhando.

Quais são suas expectativas em relação aos trabalhos da HOBRA? E que tipo de legado você acha que esse projeto pode deixar ao Brasil e à Holanda?

Vai ser intenso. Experimental. Lindo. Vai mexer, dar frutos. Ousado. E tudo que tem entre isso. Teremos lágrimas e muito amor e risadas. O incrível grupo de artistas que conseguimos juntar vai criar um projeto maravilhoso, tenho certeza absoluta. Atenção, pessoal, vai ser o máximo!

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“Sometimes I feel like walking in a tightrope”. In a humorous way, Jorn Konijn defines the feeling of facing his first multidisciplinary project, HOBRA Residência Artística Holanda Brazil, of which he is one of the creator’s. Founder director of cultural organization This Must Be the Place, Konijn has a consolidated career as a curator of international art, design and architecture exhibitions. In this interview he talks about the genesis of HOBRA, it’s challenges and also about its relationship with Brazil, from which he is an “avid collector” of LOs from Brazilian artists from the 1960s and 70s.

When has your relationship with Rio de Janeiro and Brazil started?

I have been doing cultural projects between Holland and Brazil for about 10 years now. Firstly from a governmental and supportive point of view. Later, more artistic creative projects, focussing on architecture and design. Initially most of my work was in Sao Paulo but after a few years I started discovering the “Cidade Maravilhosa” [translator’s note: Wonderful City, how Rio de Janeiro is also referred as].

How has the idea of HOBRA come about?

The idea came in dialogue and partnership with Cesar Augusto from TEMPO. He told Henriette Post, director of the Fund for Performing Arts, and myself about the Occupation Rio project he and several other artists did during the London Olympics. Henriette and I both really liked the project and started to see if we could interest the other Dutch cultural funds in participating in the project. We did and in a good dialogue with Cesar we developed the project.

What were the main challenges to make it come out from paper?

It went quite natural actually. The most important for me is always the emphasis on dialogue and cooperation on equal basis. I like to avoid any type of imposing or colonial mindset. It’s not about us doing something with them, it is about doing something together. I think both TEMPO and the curators all understood that from the beginning very quickly. There was immediately a great interest of all parties and within good spirit the project came about very quickly.

In what the experience heading HOBRA differ from your other works as an international curator?

For me this is the first multidisciplinary project since mostly I curate design or architecture or art exhibitions… never all cultural disciplines at ones! It is also a very experimental project in the sense that we don’t know the outcome, which I believe is very daring and interesting. Lastly, I never worked in a project before with so many stakeholders who all demand something (in a good sense)! Six large cultural funds from the Netherlands, also DutchCulture, then nine cultural bodies from Rio and TEMPO as the main programmer… and twenty completely unique artists with their own ideas, voices and language! It feels like walking a tightrope once in a while, which is not my strongest point! But this complete richness and diversity of voices and ideas is exactly what makes it interesting. A huge cultural challenge, both on a national and personal level.

What kind of repercussion has Brazilian art nowadays in the Netherlands? Which Brazilian artists are known in the Dutch lands?

Sadly enough there is too little knowledge of the richness of Brazilian culture. The big ones, mostly musicians, play the large venues, like Caetano or Gill. But smaller, more experimental work is hard to find. This has practical reasons – distance, costs – but also has to do with a lack of knowledge with the Dutch crowd, which is sad. The cultural venue’s seem still western oriented in their programming, whichever discipline you are working in.

What about your personal favorites and references from Brazil?

Somehow I feel I am still discovering all the great cultural productions of the 60s and 70s, which seem an un-ended well of richness. So I don’t connect that much to contemporary works. I am an avid collector of Brazilian vinyl records from that period and keep being amazed how much there is – and how little appreciation there is from Brazil. Hardly anybody knows the greats of Arthur Verocai or can name a few Bebeto songs. That’s sad to see how Brazil treats their musical heritage. It hurts when Jennifer Lopez and Pittbull perform at the opening of the Worldcup in Brazil while you have such great musical legends who can do a much better job. Apart from that, there is still in present day so much great cultural production in Brazil. In terms of architecture I think Nitsche Arquitetos and Rua Arquitetos really make interesting works. In terms of acting, you can wake me up in the middle of the night for any movie with Wagner Moura. And in terms of music, I really like Domenico Lancelotti and Rodrigo Campos. But my favorite album of last year was a psychedelic rock album out of Goiânia, by a bunch of teenager musicians called Boogarins. It’s normally not what I listen too, but this album has been on repeat for the last six months now. Brazil, always amazing me.

What are your expectations from HOBRA’s collaborations? And what kind of legacy you think this project can have for Brazil and the Netherlands?

It will be intense. Experimental. Beautiful. Moving, fruitful. Daring. And everything in between that. There will be tears and lot’s of love and laughter. The amazing group of artists we have managed to bring together will create an amazing project, I am 100% sure. Watch out guys, this will be a great one!


Jorn Konijn é um dos idealizadores da HOBRA e, do lado holandês, coordenador do projeto | Jorn Konijn is one of the creators of HOBRA and coordinator of the project from the Dutch side

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