Fazendo arte por esporte | Making art for sport

O nobre francês Pierre de Frédy, conhecido universalmente como Barão de Coubertin (1863-1937), é aclamado como inventor dos Jogos Olímpicos da era moderna, célebre pelo slogan que teria formulado e que todo pai eventualmente ensina aos filhos: “O importante é competir.” Historiador e pedagogo, Coubertin (na foto acima) praticou boxe, esgrima, remo, equitação, e ganhou uma medalha olímpica de ouro em… literatura. Trata-se de um capítulo esquecido e curioso da história das Olimpíadas. Durante sete edições, entre os Jogos de Estocolmo, em 1912, e os Jogos de Londres, em 1948, além das modalidades esportivas, competia-se em cinco categorias ligadas à arte: arquitetura, escultura, literatura, música e pintura.

O Barão foi um dos grandes incentivadores das competições artísticas: assim, os Jogos glorificavam não apenas o corpo, mas também a mente. O esporte de forma geral deveria ser obrigatoriamente o tema das obras – que, é claro, não eram produzidas à vista do público, mas em estúdios e ateliês. Após alguns anos de discussões, a ideia foi enfim implementada nos Jogos de Estocolmo-1912, e uma dupla de poetas, Hohrod e Eschbach, inscreveu-se na competição com Ode ao Esporte, poema de nove estrofes em versão bilíngue (em alemão e francês). O júri decidiu premiar a dupla com o ouro – e só então descobriu-se que “Hohrod e Eschbach” era na verdade um pseudônimo do próprio Barão de Coubertin!

Em Estocolmo, houve 35 inscritos e foram conferidas seis medalhas (cinco de ouro e uma de prata). As competições começaram a ser levadas mais a sério a partir dos Jogos de Paris, em 1924, quando quase 200 artistas submeteram seus trabalhos, incluindo três soviéticos (a União Soviética só ingressaria nas disputas esportivas dos Jogos muito depois, em 1952). Nos Jogos de Amsterdã, em 1928, pinturas, esculturas e projetos de arquitetura puderam ser avaliados pelo público numa exposição que reuniu 1150 trabalhos de dezoito países no Stedelijk Museum. Naquela edição, as modalidades passaram a ser divididas em subcategorias. Em literatura, por exemplo, competia-se em “obras líricas”, “dramáticas” ou “épicas”.

Apenas dois homens ganharam medalhas como atletas e como artistas. Ouro no tiro esportivo em Londres-1908, o americano Walter Winans ficou com a prata em Estocolmo-1912, no mesmo esporte, e com o ouro em escultura. O húngaro Alfréd Hajós levou duas medalhas de ouro na natação, em Atenas-1896, e uma de prata em arquitetura, em Paris-1924. A dificuldade de se avaliar obras de arte de maneira objetiva gerava algumas decisões insólitas dos jurados. Em 1920, nos Jogos de Antuérpia, o norueguês Holger Sinding Larsen submeteu o projeto de uma escola de ginástica e garantiu a prata em arquitetura – sem que ninguém levasse o ouro (ou o bronze). Situações assim se repetiam a cada nova edição.

Nenhum grande gênio da arte que tenha ficado para a posteridade chegou a competir nas Olimpíadas (mas o compositor Igor Stravinsky fez parte do júri de música, em Paris-1924). Depois dos Jogos de Londres-1948, o Comitê Olímpico Internacional decidiu extinguir as competições artísticas e desconsiderar aquelas já realizadas no cômputo do quadro de medalhas, alegando que os artistas eram profissionais, enquanto as Olimpíadas valorizavam o amadorismo. Hoje, eventos paralelos de arte ocorrem dentro da programação dos Jogos. Mas o legado das disputas artísticas do passado permanece em obras como o Estádio Olímpico de Amsterdã – projeto do arquiteto Jan Wils, medalha de ouro nos Jogos de 1928.

. . .

French nobleman Pierre de Frédy, universally known as Baron of Coubertin (1863-1937), is hailed as the inventor of the modern Olympic Games and celebrated by the slogan that he is supposed to have created and that possibly every parent teaches their children: “What is important is to compete.” Historian and pedagogue, Coubertin (pictured above) practiced boxing, fencing, rowing, riding, and won an Olympic gold medal in… literature. This is a forgotten and curious chapter in the history of the Olympics. For seven editions between the Stockholm Games, in 1912, and the London Games, in 1948, in addition to sports, there were competitions in five categories related to art: architecture, sculpture, literature, music and painting.

The Baron was one of the biggest instigators of the artistic competition: thus, the Games glorified not only the body, but also the mind. The sports in general should necessarily be the theme of the works – which, of course, were not produced under the public eye, but in studios and ateliers. After several years of discussion, the idea was finally implemented in the Stockholm-1912 Games, and a couple of poets, Hohrod and Eschbach, enrolled in the competition with Ode to Sport, a poem of nine stanzas in bilingual version (German and French). The jury decided to award the duo with a gold medal – but only then it was discovered that “Hohrod and Eschbach” was actually a pseudonym of Baron de Coubertin himself!

In Stockholm, there were 35 artists registered and there were granted six medals (five gold and one silver). The competitions started to be taken more seriously starting from the Paris Games in 1924, when nearly 200 artists submitted their works, including three Soviets (the Soviet Union would enter in sporting competitions in the Games only much later, in 1952). In the Amsterdam Games of 1928, paintings, sculptures and architectural designs could be evaluated by the public in an exhibition which brought together 1,150 works from eighteen countries, in the Stedelijk Museum. During those Games, the modalities became divided into subcategories. In literature, for example, they competed in categories like “lyric works”, “drama” or “epic”.

Only two men have won medals as athletes as well as artists. Gold medalist in shooting at the London Games of 1908, American Walter Winans took silver in Stockholm-1912 in the same sport, and gold for his work in sculpture. Hungarian Alfréd Hajós took two gold medals in swimming, in Athens-1896, and a silver in architecture, in Paris-1924. The difficulty of evaluating objectively artworks generated some unusual decisions from the judges. In 1920, in the Antwerp Games, Norwegian Holger Sinding Larsen submitted the project of a school gym and secured silver in architecture – but no one took the gold (or bronze). Such situations were repeated with each new edition.

No great art genius that has endured posterity came to compete in the Olympics (but composer Igor Stravinsky was part of the music jury in Paris-1924). After the London-1948 Games, the International Olympic Committee decided to terminate the artistic competitions and disregard those who had already won in the calculation of the number of medals awarded, claiming that those artists were professionals, while the Olympics valued amateurism. Nowadays, parallel art events take place within the program of the Games. But the legacy of these artistic past disputes remains in works such as the Olympic Stadium of Amsterdam – a Jan Wils architect’s design, gold medalist in the 1928 Games.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s