“Valorizar o processo é valorizar não um objeto final, mas um fazer constante.” Uma entrevista com Fred Coelho, nosso provocador | “To value the process is to value not a final object, but a constant state of doing.” An interview with Fred Coelho, our provocateur

Às suas reconhecidas atividades de pesquisador, ensaísta, escritor, articulista e professor de Literatura Brasileira e Artes Cênicas da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Fred Coelho acrescentou, a convite da HOBRA – Residência Artística Holanda Brasil, uma função de nome sugestivo: provocador. Sugerido pelos criadores do projeto e endossado pelos curadores, ele tem desempenhado, desde o início da residência, no dia 11 de julho, o papel de circular por entre os artistas de todas as áreas, ouvindo-os, trocando ideias, sugerindo caminhos – em suma, se envolvendo na produção dos seus trabalhos. Inicialmente, ele admite, seu impulso foi de resistência, “por achar que o trabalho poderia ter um escopo maior do que uma pessoa só poderia fazer”. Agora, a poucos dias do fim da residência, ele avalia a HOBRA como um projeto exitoso: “São muitas frentes em movimento, muitos pensamentos se cruzando, e isso, sem dúvida, já deu certo.” Confira a seguir uma entrevista com o nosso provocador.

Qual a sua função dentro da HOBRA, e como você pretende desenvolvê-la junto aos artistas residentes?

Eu ocupo a função denominada pelo projeto de “provocador”. Basicamente, fico à disposição dos artistas e de suas ideias, tentando me envolver de forma produtiva nos projetos – principalmente nos que forem abertos ou precisarem disso. Algumas duplas já se entenderam tão bem que não me procuraram, apesar de dividirem comigo algumas das ideias. Com outros venho trabalhando mais próximo, trocando ideias frequentes, sugerindo imagens, sons, leituras, interferindo no processo com ideias possíveis e, principalmente, ouvindo. Contraditoriamente, talvez a melhor função de um provocador seja ouvir as dúvidas e sugerir saídas possíveis para os artistas. Certamente na reta final dos trabalhos essa função terá mais contundência nos comentários e na observação dos processos.

Como foi o convite para ocupar essa função, e qual foi a sua primeira reação a ele?

O convite foi feito pelo Cesar Augusto, um dos organizadores do projeto. Segundo ele, alguns dos curadores me indicaram para o trabalho, o que contou muito para minha entrada. Minha primeira reação foi de resistência à ideia, por achar que o trabalho poderia ter um escopo maior do que uma pessoa só poderia fazer. Além disso, a ideia de ativar situações criativas através de uma “provocação” pode não ser a mais indicada quando se tem uma série de desafios na produção de trabalhos entre artistas que não se conhecem e que podem ter dinâmicas muito distintas de acordo com as distâncias culturais.

E como foram os preparativos para exercê-la?

Acho que não foi o caso de me preparar. Fui chamado, acredito, para contribuir de alguma forma no campo das ideias, já que não sou produtor nem realizador de atividades culturais. A preparação que realmente contou foi estudar um pouco as obras dos artistas indicados, e criar uma forma não invasiva de inteiração nos processos criativos em curso. Me colocar à disposição, me informar e tentar contribuir etc.

Como é a sua rotina na HOBRA?

Um dos problemas de se trabalhar em uma residência em sua própria cidade é que não se tem o privilégio de ficar 100 por cento disponível, como os artistas holandeses estão. Mas minha rotina é basicamente ir aos eventos marcados (infelizmente não consegui ir em todos), ir ao Reduto (centro cultural em Botafogo, convertido em QG da residência) ver como as coisas estão sendo feitas, isso principalmente na primeira semana, e me corresponder com os artistas sobre seus trabalhos. Com alguns, conversei sobre conteúdos, para outros, sugeri referencias de sons e imagens sobre o Rio e o Brasil. Participo dos projetos que me demandam ações específicas (textos, leituras, referências), converso com os artistas que estão com algum tipo de impasse pessoal ou artístico. Acho que não há muita rotina nessa função meio de coringa que estou ocupando. O importante é saber o que estão todos fazendo e me aproximar deles de alguma forma.

Para além do Reduto, poderia citar um ou mais casos específicos em que essa colaboração se deu?

O envolvimento é permanente, para além do Reduto, por conta de e-mails e telefonemas. Mas sim, fiz algumas coisas lá, como conversas com Emma (Rekers, representante da Holanda na área de música), Jan (Cleijne, de literatura) e Daan (Gielis, de cinema) sobre os trabalhos e sugestões sobre seus projetos, colaboração nas perguntas e na forma do Oráculo produzido por Clara (Meliande, brasileira na área de design) e Yuri (Veerman, seu parceiro holandês), conversas com a dupla de teatro sobre a ideia de sua peça, participação no projeto da dupla (agora trio, com a convidada especial Clara Cavour) de dança, leituras dos textos e sugestões críticas do teatro DOC… O trabalho de “provocador”, na verdade, se torna o trabalho de um acompanhamento crítico-intelectual, sem rotina ou presença física necessária. Busco alimentar de ideias aqueles artistas que estão com impasses ou que querem uma voz “de fora” da dupla. Mas certamente nesta reta final isso se intensificará bastante.

O que você tem a dizer sobre a ideia dos criadores da HOBRA de valorizar o processo tanto quanto ou até mais do que o resultado?

Creio que isso é uma percepção sábia quando se trabalha com residências e parcerias entre artistas que não se conhecem. Valorizar o processo já é quase uma “tradição” da modernidade, na medida em que obras abertas, erros, interrupções, desvios de rotas, tudo isso se torna parte fundamental da arte e do pensamento contemporâneos. Valorizar o processo é valorizar não um objeto final, mas um fazer constante. Conversar, se encontrar, vagar e divagar, partes fundamentais da criação em dupla, só podem ocorrer como experiência potente se valorizamos o processo ao invés dos resultados.

Quais eram as suas expectativas iniciais a respeito da HOBRA e que balanço você faz agora, com a residência em sua reta final?

Minha expectativa era parecida com o que está ocorrendo nesse período. Uma parceria criativa depende de uma série de elementos que não podem ser controlados por uma produção. Envolve empatia, língua, formatos de trabalho, propostas estéticas etc. Assim, o que estamos vendo são formas de trabalho muito originais entre cada dupla. Algumas mais diretas na relação com a área escolhida, outras desviantes, outras se contaminando do trabalho de outros artistas da residência, outras criando formas híbridas de trabalho… São muitas frentes em movimento, muitos pensamentos se cruzando, e isso, sem dúvida, já deu certo.

O que ficará da HOBRA?

Amizades, ideias, encontros e ligações criativas que talvez durem para sempre dentre os envolvidos do projeto.

. . .

To his recognized activities as a researcher, essayist, writer, columnist and Professor of Brazilian Literature and Performing Arts at Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Fred Coelho has added, at the invitation of HOBRA – Residência Artística Holanda Brasil, a position with a suggestive name: provocateur. Suggested by the creators of the project and endorsed by the curators, he has played, since the beginning of the residency, July 11th, the role of going around the artists from every field, listening to them, exchanging ideas, suggesting paths – basically, getting involved in the production of their works. Initially, he admits, his impulse was one of resistance, “for thinking that the work could have a larger scope than only one person can cope with”. Now, just a few days from the end of the residency, he evaluates HOBRA as a successful project: “There are many fronts on the move, many thoughts crossing themselves, and that, without a doubt, has already worked out”. Check out below an interview with our provocateur.

What is your function inside HOBRA and how do you intend to develop it together with the resident artists?

I have a function called, by the project, “provocateur”. Basically, I am available for the artists and their ideas, trying to involve myself in a productive way in the projects – especially in those that are open or need this. Some duos already got along so well that they don’t even look for me, even though they do share some of their ideas. With others I have been working closer, frequently exchanging ideas, suggesting images, sounds, readings, interfering in the process with possible ideas and, mainly, listening to them. Contradictorily, perhaps the best function of a provocateur is to listen to eventual doubts and to suggest possible ways out for the artists. Certainly, in the final stretch of the works, this function will be more active in the comments and observation of the process, by me.

How was the invitation to play this role and what was your first reaction to it?

The invitation was made by Cesar Augusto, one of the project’s organizers. According to him, some of the curators had suggested my name for this work, which was what played a big role in their choice. My first reaction was one of resistance to the idea, for thinking that the work could have a larger scope than only one person can cope with. Besides that, the idea of activating creative situations through a “provocation” may not be the best when we have a series of challenges in the production of works done by artists that did not know each other and that could have very distinct dynamics in accordance with their cultural distance.

And how were the preparations to execute this function?

I don’t think it was about getting prepared. I was called, I believe, to contribute in some way in the field of ideas, since I am not a producer nor in charge of cultural activities. The preparation that really counted was to study a bit about the chosen artists’ works and to create a non-invasive way of getting the full picture of the ongoing creative processes. To be available, to be well informed and to try to help, etc.

How is your routine at HOBRA?

One of the problems of working in a residency in your own city is that you do not have the privilege of being 100% available, as the Dutch artists are. But my routine is basically made of going to the scheduled events (unfortunately I wasn’t able to to go all of them), go to Reduto (a cultural center in Botafogo that was turned into the residency’s HQ), see how things are being done, especially during the first week, and to correspond with the artists about their works. With some, I talked about the contents, to others I suggested references of sounds and images about Rio and Brazil. I participate in projects that demand specific actions (texts, reading tips, references), I talk with the artists who are in some kind of personal or artistic deadlock. I think that there isn’t much of a routine in this function – a bit like The Joker – that I am playing. The important is to know what everybody is doing and to get close to them somehow.

For beyond Reduto, could you mention some or more specific cases in which this collaboration happened?

The involvement is permanent, for beyond Reduto’s area, through e-mails and phone calls. But yes, I did some stuff there, like having some talks with Emma (Rekers, Dutch delegate from the field of music), Jan (Cleijne, from Literature) e Daan (Gielis, from Film) about their works and suggestions about their projects, collaborating in the questions and form the oracle produced by Clara (Meliande, Brazilian delegate from design) and Yuri (Veerman, her Dutch partner), talks with the duo from theater about the idea over their play, participation in the project from the duo (now trio, with special guest Clara Cavour) from dance, reading the texts and critical suggestions from the guys from DOC theater… The work as a “provocateur”, in truth, becomes the job of a critical-intellectual attendance, without routine or physical presence required. I seek to feed myself with the ideas from those artists with some deadlock or that want an “outside” voice. But certainly in this final stretch that will become much more intensified.

What do you have to say about the idea of HOBRA’s creators of valorize the process as much or even more than the result itself?

I believe that this a wise perception when we work we residencies and partnerships between artists who don’t know each other. To valorize the process is already almost a “tradition” of modernity, when open works, mistakes, interruptions, detours, all that becomes fundamental parts of contemporary art and thought. To valorize the process is to value not a final object, but a constant act of making. To talk, to meet, to wander and digress, these are fundamental parts of a creation in pairs, which can only happen as a potent experience if we valorize the process instead of the results.

What were your initial expectations about HOBRA and what is your final evaluation now, with the residency at its final stages?

My expectations were a bit like what is happening at this moment. A creative partnership depends on a series of elements that cannot be controlled by a production team. It involves empathy, language, work formats, aesthetic proposals etc. Thus, what we are seeing are ways of work that are very original betweem each duo. Some, more direct in relation to the chosen area, others deviant, yet others contaminating the work of other artists from the residency, others creating hybrid forms of work… There are many fronts on the move, many thoughts crossing themselves, and that, without a doubt, has already worked out.

What will be left from HOBRA?

Friendships, ideas, meetings and creative connections that perhaps may last forever among those involved in the project.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s