O legado artístico de uma ocupação | The artistic legacy of an occupation

O século XVII é conhecido como a “Era de Ouro” da pintura holandesa, e basta citar Rembrandt (1606-1669) e Vermeer (1632-1675) para ver que não há exagero. Foi um período turbulento e decisivo para os Países Baixos, que expandiram suas fronteiras comerciais por meio da Companhia das Índias Orientais, fundada em 1602, e conquistaram a independência definitiva da Espanha em 1648. Nesse ínterim, estimulados pelo sucesso de seus negócios na Ásia, os holandeses voltaram sua atenção para a América – e lançaram-se à ocupação do Nordeste do Brasil, impactando a história e a cultura do país.

Na época, vigorava a União Ibérica (1580-1640), com a fusão de Espanha e Portugal. Ao se apossar de uma parte do Brasil, os Países Baixos atacavam a Coroa Espanhola e passavam a controlar os engenhos de açúcar, importante fonte de renda. A tomada de Salvador em 1624 foi repelida em um ano. Já a ocupação de Pernambuco foi bem mais duradoura, prolongando-se de 1630 a 1654. A presença holandesa promoveu grandes transformações urbanas e culturais, sobretudo entre 1637 e 1644, quando a administração esteve a cargo do conde Johan Maurits van Nassau-Siegen – ou Maurício de Nassau (abaixo).

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Chefe militar e governador do Brasil Holandês, Maurício de Nassau desempenhou ainda o papel de mecenas das artes. Ele estabeleceu-se no país com uma comitiva de pintores e cronistas, encarregados de registrar o território e sua gente. Essa documentação era uma tarefa de valor científico e uma forma de marketing pessoal do Conde naqueles tempos pré-Instagram – ele precisava prestar contas à Companhia das Índias Ocidentais, que o indicara para a função. Não havia nenhum Rembrandt ou Vermeer na missão holandesa, mas havia alguns artistas de grande talento, e o mais célebre foi Frans Post (1612-1680).

No ensaio “A Obra de Frans Post”, Bia e Pedro Corrêa do Lago dão a dimensão de sua relevância: “Frans Post não é só o primeiro pintor da paisagem brasileira, mas também o primeiro paisagista das Américas (…) A Vista de Itamaracá (imagem no alto), feita por Post dois meses após sua chegada, em 1637, é o primeiro quadro a óleo de tema profano executado por um artista profissional nas Américas.” O ambiente de maior tolerância religiosa sob domínio holandês – a primeira sinagoga do continente americano foi erguida no Recife em 1636 – permitia uma liberdade artística inédita durante um século de colonização portuguesa.

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Em sete anos no Brasil, Post pintou dezoito paisagens, das quais restam apenas sete. De volta à Europa, seguiu produzindo, de memória, pinturas “brasileiras” de grande valor, porém cada vez mais idealizadas, suprindo uma demanda por paisagens “exóticas”. Outro destaque da missão holandesa foi Albert Eckhout (1610-1666), que produziu um trabalho de fortes características naturalistas e etnográficas. Além de naturezas-mortas com frutas tropicais, Eckhout realizou estudos da flora e da fauna brasileiras e retratou as populações nativas (imagem acima) e mestiças do país – registrando seus traços físicos, vestuários, amas e utensílios. Ao lado de outros nomes menos conhecidos, ambos deixaram um legado artístico que se desdobraria em uma intensa relação de intercâmbio cultural entre Holanda e Brasil.

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The seventeenth century is known as the “Golden Age” of Dutch painting, and just name Rembrandt (1606-1669) and Vermeer (1632-1675) to see that there is no exaggeration. It was a turbulent and decisive period for the Netherlands, which have expanded their trade barriers through the East India Company, founded in 1602, and won the final independence from Spain in 1648. In the meantime, encouraged by the success of its business in Asia, the Dutch turned their attention to America – and went on into occupying the Northeastern part of Brazil, impacting the history and culture of the country.

At the time, prevailed the Iberian Union (1580-1640), with the merger of Spain and Portugal. To get hold of a part of Brazil, the Netherlands attacked the Spanish Crown and passed to control the sugar mills, an important source of income. Salvador’s take over in 1624 was repelled in a year. Whereas the occupation of Pernambuco was much more lasting, extending from 1630 to 1654. The Dutch presence promoted major urban and cultural transformations, especially between 1637 and 1644, when the administration was in charge of Count Johan Maurits van Nassau-Siegen – or Maurício de Nassau (below).

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Military commander and governor of Dutch Brazil, Maurício de Nassau also played the role of patron of the arts. He settled in the country with an entourage of painters and writers in charge of registering the territory and its people. This documentation was a task pf scientific value and a form of personal marketing in those pre-Instagram times – he needed to be accountable to the West India Company, which indicated him to the function. There was no Rembrandt or Vermeer in the Dutch mission, but there were some artists of great talent, and the most famous was Frans Post (1612-1680).

In the essay “A Obra de Frans Post”, Bia and Pedro Corrêa do Lago give the size of his relevance, “Frans Post is not only the first painter of Brazilian landscape, but also the first landscape artist of the Americas (…) The view of Itamaracá (image at the top), made by Post two months after his arrival in 1637, is the first profane theme oil painting done by a professional artist in the Americas”. The greater religious tolerance under Dutch rule environment. – the first synagogue in the Americas was built in Recife in 1636 – allowed an unprecedented artistic freedom for a century of Portuguese colonization.

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In seven years in Brazil, Post painted eighteen landscapes, of which only seven survived. Back in Europe, he continued to produce, from memory, “Brazilian” paintings of great value, but increasingly idealized, supplying a demand for “exotic” landscapes. Another highlight of the Dutch mission was Albert Eckhout (1610-1666), who produced a work of strong naturalistic and ethnographic characteristics. In addition to still-life nature with tropical fruits, Eckhout conducted studies of flora and fauna and portrayed Brazilian native populations (above) and mestizos from the country – registering their physical traits, clothing, love and utensils. Next to some less familiar names, both left an artistic legacy that would unfold in an intense cultural exchange relationship between the Netherlands and Brazil.

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