HOBRA feita a muitas mãos | HOBRA made by many hands

Em seus estágios iniciais de desenvolvimento, a HOBRA – Residência Artística Holanda Brasil foi idealizada a partir de uma premissa bem definida: dez artistas da Holanda, cada um de uma área, viriam para o Rio de Janeiro, onde interagiriam ao longo de vinte dias com dez artistas do Brasil, cada um também de uma área, formando duplas de acordo com o seu segmento de atuação e criando um trabalho juntos. Um 21º artista, convidado a fazer uma obra própria, seria incorporado depois. Com isso, era de se esperar que houvesse onze criações. Mas, como também era esperado (e até desejado), o intercâmbio entre os participantes se revelou frutífero e livre de amarras. Duplas se transformaram em trios ou quartetos, incorporando artistas de outras searas na criação ou no resultado final. Algumas fizeram mais de um trabalho ou criaram, cada integrante, a sua própria obra. Resultado: mais de vinte projetos serão exibidos no domingo (31 de julho), no evento HOBRA PARA TODOS, no Centro Cultural Municipal Laurinda Santos Lobo e no Museu Casa de Benjamin Constant, em Santa Teresa.

Talvez o exemplo mais eloquente de como isso se deu seja Emoticon, projeto criado por Dani Lima e Fernando Belfiore, a dupla da área de dança, e pela jornalista e filmmaker Clara Cavour, artista especialmente convidada da HOBRA (que também exibirá um trabalho solo em vídeo chamado Diante do Mar). Inspirada no questionário The Experimental Generation of Interpersonal Closeness, do psicólogo social Arthur Aron, e na série Screen Tests, de Andy Warhol, a vídeo-instalação criada pelo trio surge do desejo de olhar o outro e forma um arquivo gestual de todos os artistas e curadores da HOBRA. A ideia surgiu durante o primeiro encontro com todos os participantes da HOBRA, no dia 11 de julho, no Reduto (o centro cultural em Botafogo que serviu de QG da residência). Em comum, os três descobriram a vontade de fazer uma reflexão sobre o uso do corpo. Diante de uma câmera, cada participante respondeu gestualmente – sem uma palavra falada – a mais de quarenta perguntas sobre escolhas pessoais, passando por assuntos de família até preferências sexuais.

Também fruto de um espírito colaborativo é UberPool Rio, filme de Daan Gielis, representante da Holanda na área de cinema. O curta-metragem acompanha encontros casuais no banco de trás de um carro, durante viagens compartilhadas do serviço uberPOOL pelas ruas do Rio. No elenco estão doze pessoas, das quais apenas três são atores profissionais – os demais são artistas da residência e até integrantes da equipe da HOBRA. Wagner Novais, sua dupla, é um dos que aparece no filme, mas ele também desenvolveu o seu próprio trabalho, o curta Cidade Olímpica, que mostra dois homens participando de um processo seletivo para um trabalho temporário durante os Jogos Olímpicos. O entrevistador propõe, então, uma dinâmica e mostra a eles fotos de pichações em muros cariocas. Para dar um caráter colaborativo ao seu filme, Wagner selecionou e fez circular, entre os colegas da HOBRA, fotos de muros com pichações espirituosas. Por cima de uma delas, o quadrinista Jan Cleijne, da dupla de literatura, fez um desenho, intervenção que acabou sendo incorporada ao filme.

A residência também gerou uma intersecção entre o cinema e a arquitetura, esta representada na HOBRA por Pedro Varella e Sjoerd ter Borg, cujo filme O Visitante tem o roteiro assinado por Daan. Trata-se de um curta de cinco minutos inspirado em um crime ocorrido em 1983, quando o arquiteto holandês Jan Voorberg foi assassinado durante visita ao conjunto habitacional Pedregulho, no Rio de Janeiro. A trilha sonora do filme ficou a cargo de Emma Rekers, a representante holandesa na área de música. Outros dois trabalhos, também com caráter de integração, foram desenvolvidos pela dupla: Mapa, uma instalação criada a partir dos deslocamentos dos participantes da HOBRA pela cidade, mapeados pela ferramenta de localização do celular; e Visível, uma recriação do ambiente da casa de banhos originalmente existente no pátio do Museu Casa de Benjamin Constant, com uma estrutura que desvela seu interior aos poucos através da peça Invisível, de Patrick Pessoa e Jörgen Tjon A Fong, a dupla da área de teatro DOC.

Composta por quatro cenas autônomas, mas articuladas conceitualmente, a peça teve o elenco e integrantes da ficha técnica recrutados entre profissionais da classe teatral carioca que participaram de um workshop ministrado por Patrick e Jörgen durante a residência. Encontros abertos ao público, aliás, também foram decisivos para a criação de trabalhos de outros artistas da HOBRA. Em uma oficina de dois dias, Emma Rekers concebeu um coro que se apresentará no caramanchão da Casa de Benjamin Constant. O representante brasileiro de música, Floriano Romano, que também realizou um workshop, concebeu uma instalação sonora. Também de uma atividade realizada durante a residência vem o elenco de A Fonte, performance criada pelos coreógrafos Dani Lima e Fernando Belfiore, inspirado na tela O Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch, e na obra do artista visual Aernout Mik, ambos holandeses. Da mesma forma, os desenhos produzidos em um workshop de Jonas Ohlsson, representante da Holanda em artes visuais, serão exibidos no evento de domingo.

Além dos desenhos, Jonas vai apresentar dois trabalhos desenvolvidos em estreita parceria com sua dupla na HOBRA, o artista plástico Marcos Chaves, que já conhece desde 2007 e com quem já se encontrou em algumas ocasiões desde então – é a única dupla que já se conhecia antes da residência. O primeiro, batizado apenas como Muro, foi resultado de uma espécie de brincadeira de Marcos logo no primeiro dia da HOBRA: durante uma visita o Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, ele derrubou com um coice um muro que estava quase caindo. A partir daí, surgiu a ideia de reconstruir algo no lugar, e a dupla optou por refazer o muro, agora com uma intervenção visual sobre ele. Além disso, Jonas fará no domingo uma performance multimídia baseada em gravações de conversas que manteve com Marcos durante a residência – algo com um quê de palestra (numa versão potencialmente mais psicodélica) com algo da irreverência de um stand-up comedy. Já de autoria apenas de Marcos serão exibidos dois vídeos, Não Temer e Norte Sul, feitos respectivamente no Rio e em Amsterdã.

Jonas também marca presença em um trabalho não se sua autoria, mas de Júlio Parente e Thomas Kuijpers, a dupla da área de novas mídias da HOBRA. Junto com outros artistas e integrantes da equipe do projeto, ele participou de um jogo de futebol que poderia ser igual a qualquer pelada entre amigos, com a diferença de que os dois times em campo usavam uniformes com as mesmas cores. Um vídeo dessa partida integra a série de trabalhos Oh Yeah, dividida em quatro partes – há mais um vídeo, uma instalação que propõe uma experiência de realidade virtual e uma intervenção urbana. Todos, em maior ou menor grau, parecem ser permeados por questões políticas. Da mesma forma são as obras criadas pelos designers Clara Meliande e Yuri Veerman. Oráculo, por exemplo, é uma performance criada a partir de respostas que eles receberam a um questionário online, no qual se destacava a pergunta “Como você vê o futuro do Brasil?”. Já Yuri ainda entrega uma performance chamada Jornal Nacional – Ao Vivo, na qual vai apresentar parte do telejornal em português, língua que ele não fala

De todas as duplas, talvez as que aparentemente trabalharam de forma mais autossuficiente foram as de literatura e teatro. No primeiro caso, o quadrinista Jan Cleijne e o poeta Lucas Viriato conceberam uma graphic novel chamada Surrio, com quatro narrativas breves que têm o Rio de Janeiro como cenário ou pano de fundo. Já o autor Pedro Kosovski e o diretor Sjaron Minailo criaram Arariboy, uma peça performática inspirada no líder Arariboia, sobre um menino que tenta atravessar a Baía de Guanabara a nado e acaba se afogando – mas, no ato, passa por uma transformação. A cantora lírica Gabriela Geluda e a atriz Carolina Virgüez estão em cena. Mas mesmo esses trabalhos, que não exibem outros artistas da residência na ficha técnica, também foram perpassados pela intensa troca de ideias dos últimos dias. De acordo com Cesar Augusto, um dos idealizadores e curadores da HOBRA, essa “contaminação” era totalmente esperada. “A questão girava, e ainda gira, em torno de como nós temos que lidar e trabalhar com isso”, afirma.

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