“Tivemos que trabalhar com o improvável, o imprevisto, o imprevisível.” Um balanço da HOBRA, por Cesar Augusto | “We had to work with the improbable, the unpredicted, the unpredictable.” A balance of HOBRA, by Cesar Augusto

“Quanto tempo é necessário para se criar algo? O que determina essa criação” Com essas perguntas sem respostas certas, quase filosóficas, Cesar Augusto, um dos idealizadores da HOBRA – Residência Artística Holanda Brasil, reflete sobre o desafio essencial trazido pelo projeto: reunir 21 artistas durante apenas três semanas e, desse encontro, fazer surgirem obras criadas em processos colaborativos. Faltando dois dias para HOBRA PARA TODOS, o evento que encerra a residência, no qual serão apresentadas as criações dos artistas, ele (que, ao lado de Bia Junqueira e Márcia Dias, é também o curador das áreas de teatro e teatro doc) faz um balanço da empreitada nesta entrevista. “O processo que, por si só, traz a HOBRA é um trabalho em construção. Mesmo as apresentações são processos a serem perscrutados, observados, interferidos, inclusive pelo público.”

Originalmente, a HOBRA previa a criação de duplas divididas por áreas específicas. E, no entanto, já se sabe que algumas dessas duplas trabalharam em colaboração com outros artistas. Alguns artistas fizeram trabalhos individuais e também com suas duplas. O que essa dinâmica trouxe de positivo para a residência?

Como tivemos que trabalhar com o improvável, o imprevisto, o imprevisível, e tantas outras questões que significam o humano e suas idiossincrasias, estávamos esperando exatamente o que aconteceu. A questão girava, e ainda gira, em torno de como nós temos que lidar e trabalhar com isso. A palavra HOBRA, sugerida pela minha parceira Bia Junqueira, que, juntamente com Márcia Dias, dirige comigo o TEMPO_FESTIVAL, tem muitos significados. O processo que, por si só, traz a HOBRA é um trabalho em construção. Mesmo as apresentações são processos a serem perscrutados, observados, interferidos, inclusive pelo público. São mais de vinte construções, dois países, 21 artistas, treze curadores, mais uma equipe incrível e diversificada, numa cidade como o Rio de Janeiro “à beira dos Jogos Olímpicos”.

Com o dia do evento final da HOBRA se aproximando, o que se pode antever em relação ao que será apresentado ao público?

Trabalhos em fluxo, seja os que serão exibidos de forma habitual, que o espectador estará, por assim dizer, habituado a assistir, e outras intervenções que, apesar de estarem programadas, com certeza irão surpreender, seja pelo local, espaço, apropriação ou mesmo ineditismo.

Pelo que você tem acompanhado, qual tem sido a impressão dos brasileiros e, especialmente, dos holandeses em relação ao projeto?

Os brasileiros são anfitriões, não poderia ser diferente. Estamos recebendo artistas e projetos em nossa “casa”. Ao mesmo tempo, o diálogo se estabelece para se construir. Portanto, percebo que, do lado BRA, existe a interlocução digerida, revigorada e pronta a ser debatida, seja quantas vezes for necessária. Talvez, esta lógica possa ser expressa da parte deles da mesma forma. Isso se modifica na medida que as duplas são e atuam em áreas diferentes.

Quando o projeto começou, falou-se bastante do tempo exíguo para a criação de uma obra. Hoje, com a residência quase no fim, qual é a sua avaliação disso? De que forma esse tempo de apenas vinte dias influenciou o projeto, a dinâmica entre os artistas e os trabalhos que serão apresentados?

Isso é bastante complexo e, por isso, contagiante. Quanto tempo é necessário para se criar algo? O que determina essa criação? A sua construção, o diálogo que se estabelece até o ponto de se chegar no “formato ideal”. O tempo para que isso, de fato, se crie, ainda mais quando este tempo-duração já está previamente determinado. Estamos aqui apresentando processos em construção. (H)obras que têm a proeza de conter definições claras para se criar algo compartilhado, dialogado, também negociado, sofrido, vivido e em processo orgânico na sua concepção estética, no pensamento ou na sua criação.

Objetivamente, houve alguma situação mais difícil ou curiosa, do ponto de vista de curadoria ou produção, com a qual você tenha tido que lidar durante a residência?

Poderia dizer várias, mas não conto! Tudo é fácil de ser entendido de forma errada. Tudo pode ser, ao mesmo tempo, percebido como algo a se “entender” num processo de criação e te afirmo: mesmo quando fazemos individualmente. Somos tantos nós, não é mesmo?!

Para a realização do evento final, foram escolhidas duas instituições em Santa Teresa. Por que a opção pelo bairro e por essas duas casas, especificamente? Que possibilidades esses imóveis oferecem para a apresentação dos trabalhos?

Em reunião na Secretaria Municipal de Cultura, nos foi indicado o bairro de Santa Teresa. A princípio, queríamos a Praça Tiradentes e seus arredores, mas não podíamos por causa dos eventos olímpicos. Mas, quando recebemos esta informação, nos pareceu um presente. Santa Teresa tem todos os atributos para receber um projeto como este. O Centro Cultural Laurinda Santos Lobo e a Casa Benjamin Constant – cerca de 100 metros separam uma casa da outra – ainda são pouco conhecidos, infelizmente, para os cariocas, e são exemplos de espaços de suma importância para a cidade. Dar foco a estes espaços é crucial para as aspirações artísticas e culturais da HOBRA.

Além da interação, digamos, produtiva, a HOBRA foi marcada por um convívio social intenso, especialmente nas primeiras semanas, dentro de uma agenda da própria residência. Qual foi o objetivo disso e o que essa interação proporcionou aos artistas?

HOBRA tem características específicas. Várias instituições, um número considerável de curadores, idealizadores, além da própria equipe, todos empenhados a trabalhar com situações imponderáveis, mesmo que previamente projetadas. Para alcançarmos o êxito necessário, a convivência vale ouro e, exatamente por isso, não poupamos esforços para que, de fato, conseguíssemos ter um grupo coeso, na medida do possível, e apto a construir seus trabalhos em duplas, em conjunto e, por que não, individualmente. Acho que foi a melhor estratégia.

Qual foi a importância do Reduto enquanto base das atividades do projeto?

O Reduto é o nosso QG. O ponto central para alimentar os diálogos, os encontros, as reuniões, as práticas, ensaios e, por que não, festas! Foi pensado para isso. HOBRA foi recebida e plenamente absorvida em suas necessidades.

Ainda que o projeto não tenha terminado, que balanço você faz até aqui e que legado prevê que ele deixará?

Legado, essa palavra está na moda, não é?! Um legado simbólico inestimável. Tenho certeza de que os trabalhos se desenvolverão, muitas parcerias ganharão fôlego e não aponto mais para duos, e sim trios, quartetos, o que a nossa imaginação puder projetar. Concretamente, HOBRA está doando uma reforma nos jardins do Centro Cultural Laurinda Santos Lobo e está ficando lindo. Na Casa Benjamin Constant, também estamos com uma contrapartida, melhorias importantes para o espaço. Um projeto como o nosso está conectado desta forma.

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“How much time is necessary to create something? What determines this creation?” With these questions without certain answers, almost philosophical, Cesar Augusto, one of the creators of HOBRA – Residência Artística Holanda Brasil, reflects about the essential challenge brought by the Project: to gather together 21 artists during only three weeks and, from this meeting, allow to arise works created in collaborative processes.With just two days left until the closing event HOBRA PARA TODOS, which marks the end of the residency, in which the artists’ works will be shown, he (who, together with Bia Junqueira and Márcia Dias, is also the curator of the fields of theater and theater doc) makes a balance of the enterprise in this interview. “The process that, by itself, brings HOBRA about, is a work in construction. Even the performances are processes to be scanned, observed, interfered upon, also by the public.”
Originally, HOBRA predicted the creations by duos divided by specific areas. However, we already know that some of these duos worked in collaboration with other artists. Some artists did their individual works and also another one with their pairs. What these dynamics have brought of positive to the residency?

Once we had to work with the improbable, the unpredicted, the unpredictable, and so many other issues that get meaning to the human being and our idiosyncrasies, we were expecting exactly that what has happened. The question turned around, and still turns around, how we have to deal with and work with this. The word HOBRA, suggested by my partner Bia Junqueira, who, together with Márcia Dias, directs TEMPO_FESTIVAL with me, has many meanings. The process which, by itself, brings HOBRA about, is a work in construction. Even the performances are processes to be scanned, observed, interfered upon, also by the public. There are more than twenty constructions, two countries, 21 artists, thirteen curators, plus an incredible and diverse team, in a city like Rio de Janeiro “on the verge of the Olympic Games”.

With HOBRA’s final event date approaching, what can we foresee in terms of what will be presented to the public?

Works in movement, either those that will be shown in the habitual form, which the spectator will be, let’s put it this way, used to watch, and other interventions that, even though they are scheduled, certainly will surprise, be it because of the place, the space, the appropriation itself or the novelty.

From what you have been seeing, what has been the perception from the Brazilian side and, especially, from the Dutch in regards to the project?

The Brazilians are the hosts, that could not be different. We are hosting artists and projects in our “home”. At the same time, the dialogue is established to be able to build. Thus, I perceive that, from the Brazilian side, there is a digested interlocution, reinvigorated and ready to be debated, no matter how many times it is made necessary. Perhaps these logics can be expressed from their side the same way. That modifies itself once the duos are from and act in different fields.

When the project started, a lot was talked about the limited time for the creation of the works. Today, with the residency at its ending, how do you evaluate that? In what way this time limit of 20 days has influenced the project, the dynamics among the artists and the works that will be presented?

This is very complex and, thus, contagious. How much time is necessary to create a dialogue? What determines this creation? The construction, the dialogue that is established up to the point of arriving at an “ideal format”. The time needed for, in fact, creating, especially when this time-duration is already previously determined. We are here presenting processes in construction. Works that have the prowess of containing clear definitions to create something shared, with dialogue, also negotiated, suffered, fully lived and in an organic process ts aesthetic concept, in the thought process or in its creation.

Objectively, was there any situation that was more difficult or curious, from the perspective of the curatorship or the production, with which you had to deal with during the residency?

I could say that many, indeed, but I won’t tell! That’s because everything can be easily understood the wrong way. Everything can be perceived as something to “understand” in a process of creation and I tell you: even when we do something individually. We are so much ourselves, aren’t we?!

For the final event two institutions from the Santa Teresa neighborhood have been chosen. Why this option for this part of Rio and those two places, specifically? What possibilities these spaces offer for the presentation of the works?

In a meeting with the city’s Cultural Department, the neighborhood of Santa Teresa was tipped to us. At first, we wanted PraçaTiradentes and its surroundings, but we were not able to get it because of the Olympic events to happen there. However, when we got this information, it actually looked to us like a gift. Santa Teresa has all the attributes needed to host a project like this. Centro Cultural Laurinda Santos Lobo and Casa Benjamin Constant – about 100 meters separate one place from the other – are still not that well known, unfortunately, to the Rio population, but are examples of spaces of a high importance to the city. To highlight these spaces is crucial for the artistic and cultural aspirations of HOBRA.

Besides the, let’s say, productive interaction among the artists, HOBRA was marked by intense socialization, especially in the first weeks, within the schedule of the residency itself. What was the objective behind this and what this interaction has brought to the artists?

HOBRA has very specific characteristics. Various institutions involved, a considerable number of curators, creators, besides the team itself, all of them dedicated to working in unpredictable situations, even if previously projected. To reach the necessary success, the socialization is gold and exactly because of that we have put all our strength to get a cohesive group, as much as possible, able to build their works as duos, in pair, and, why not, individually as well. I think this was the best strategy.

What was the importance of Reduto as the headquarters for the activities of the project?

Reduto is our HQ. The central point to feed the dialogues, the meetings, the rehearsals, practices and the parties! The place was conceived for that. HOBRA was hosted there and fully absorbed in its needs.

Although the project has not finished yet, what is your balance up until now and what legacy you predict it will leave us?

Legacy, this word is trendy, no?! An invaluable symbolic legacy. I am sure that the works will be developed, many partnerships will get extra gas and then we may see not duos, but trios or larger combinations, anything our imagination allows us to project. Concretely, HOBRA is donating a refurbishing of the gardens from Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, which is becoming gorgeous. We are also leaving something important for Casa Benjamin Constant, some improvements. A project like ours has to be connected in this way.

 

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