Experiência HOBRA | HOBRA experience

Por Fred Coelho, provocador da HOBRA |

Após três semanas intensas para seus participantes, termina a experiência HOBRA. Digo experiência no lugar de projeto ou evento porque é a palavra que melhor dá conta da jornada. Todos os 21 artistas que mergulharam no processo tiveram, em alguma medida, seus trabalhos e trajetórias marcados por ela. E as marcas que me refiro não são apenas profundas ou perenes. Elas serão também sutis, epidérmicas, efêmeras – mas ainda assim, estarão lá. Pois 21 dias para 21 artistas que não se conheciam reverberarão em suas vidas por longo tempo.

Vale ressaltar que a experiência HOBRA não foi uniforme, não teve o mesmo ritmo, não foi sempre harmônica, não teve um único sentido para cada artistas envolvido (e, arrisco dizer, para todos os profissionais engajados na sua produção). Foram muitos caminhos abertos. Muitos encontros de intensidades distintas – e desencontros generosos em suas forças e impasses criativos.

Esse conjunto de microexperiências forma um bloco de afetos que no último domingo (31 de julho) foi mostrado em toda sua força. Dezenas de trabalhos brotaram pelos cantos, salas, jardins, muros, janelas, ruínas, coretos e demais espaços cujas possibilidades de ocupação da Laurinda Santos Lobo e do Benjamin Constant permitissem. Das 13 horas até o final da noite, uma sequência de atividades entre o audiovisual, a performance, o teatro, a dança ou a música intercalaram ações coletivas. Tais ações, além da qualidade exibida para pouco tempo de criação, preparação, planejamento e execução, mostraram outra força do HOBRA: a capacidade de agregar através de workshops e amizades uma grande quantidade de artistas da cidade, amadores, profissionais, aprendizes e mestres de seu ofício. Diversos rostos e vozes que ampliaram a experiência de criação dos residentes e deu ao público a certeza de que aquele domingo não era apenas sobre resultados artísticos de uma residência. Ele era, também, sobre nossas vidas.

Simultaneamente, os trabalhos frutos de instalações, filmes e obras materiais eram um poderoso contraponto a tudo que estava em movimento. Vídeos, filmes, imagens, os quadrinhos em processo e suas histórias sensíveis e políticas, o assassinato do arquiteto, um aperto de mãos possível entre as diferenças (Oh Yeah!), a cidade oscilante entre o movimento e necrose, o muro refeito (contra-bólide que “devolve o muro ao muro”), tudo isso confirmou a fertilidade de encontros como esses – ideias que surgem das conversas, da empatia, da circulação, da abertura entre todos. Músicos com cineastas, roteiristas com arquitetos, artistas como atores, designers com performers, drones, um mapa de giz. A experiência de cada um afetando a experiência de todos.

Um parênteses aqui é fundamental. O trabalho dos curadores de cada área para o resultado final foi fundamental. Mais do que isso, foi marcante. Muitas vezes, tornam-se parte dos trabalhos, conviveram com seus dilemas, se interessaram por processos afins de outras áreas, aceitaram desafios artísticos e saíram da comodidade isenta de quem “pensa” a obra, porém não faz parte dela. E isso, muitas vezes, é raro.

Em tão extensa rede de encontros, é impossível situar um cerne específico para dar conta de tudo isso que ainda estará no ar por longo tempo. Um trabalho, porém, talvez sintetize um pouco a intenção de brevíssimo balanço afetivo que faço aqui do ponto de vista de quem teve, de forma mínima, o privilégio de estar perto da experiência HOBRA. Falo de Emoticon, de Clara Cavour, Dani Lima e Fernando Belfiore (na foto no alto, Fred Coelho participando do trabalho). Não se trata de ser o melhor ou qualquer coisa assim. É porque, ali, foram registradas as emoções (e resistências a elas) de praticamente todos aqueles que estiveram no projeto. São retratos imensos dos rostos, olhos nos olhos da câmara-publico, e sequências deliciosas das danças pessoais de cada um. Na imersão desses rostos e corpos, após algum tempo os vendo de perto, desarmados em suas surpresas pelas perguntas feitas pelo trio, o que emerge é a impressão final, ao menos para mim, desses 21 dias: cada pessoa é um universo e são experiências como o HOBRA que nos coloca em movimento, expandidos em novas forças, descobrindo novos horizontes infinitos.

Em tempos sombrios, em dias de som e fúria, em épocas em que o passado insiste em sepultar futuros renovadores, a experiência HOBRA permitiu que todos pudessem entender o que é trabalhar com as diferenças. Isso é um aprendizado raro para cada um de nós. Que daqui em diante a vida, como a dança do Emoticon, seja livre para inventarmos no escuro o passo seguinte da mudança.

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